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A nova normalidade da Covid na China – 23/05/2022 – Cecilia Machado

A orientação de Xi Jinping em reunião do Partido Comunista no início do mês foi clara: o país segue aderindo de forma inquestionável à estratégia de baixa tolerância à Covid-19. A desistência da China de sediar a Copa Asiática de 2023, um torneio de futebol que aconteceria apenas em junho e julho do ano que vem, alimenta especulações de que o país ainda irá perseverar nessa estratégia por um bom tempo.

O controle da nova onda de contágios —que se deu através de lockdowns e restrições de mobilidade severas— já se reflete na reversão e na melhora nos números de novos casos de Covid-19, e apenas poucas entre maiores e mais populosas cidades chinesas seguem com controles mais estritos, como é o caso de Xangai. As demais cidades ensaiam caminho a uma nova normalidade, que, no caso da China, envolve testagem em massa, quarentenas e controle das fronteiras.

No pano de fundo está a visão de que a estratégia chinesa em 2020 foi muito exitosa, permitindo rápida recuperação da atividade logo no início da pandemia. A economia asiática cresceu 2,2% e 8,1% nos dois últimos anos, e o sucesso na contenção do Covid-19 é visto com enorme orgulho pela população, já que poupou 1,4 bilhão de pessoas dos altos índices de mortalidade vistos no mundo, em contraste marcante com o mais de 1 milhão de mortes nos Estados Unidos.

Para os que questionam a eficácia de estratégia chinesa ante as novas variantes mais contagiosas e menos letais —que aumentam em muito o custo econômico de sua contenção—, um recente estudo publicado na Nature Medicine dá sustentação ao posicionamento do governo chinês, argumentando que, sem ele, o nível de imunização atingido pela campanha de vacinação chinesa até março de 2022 causaria uma tsunami de mortes (1,55 milhão), sobrecarregando o sistema de saúde em até 15,6 vezes sua atual capacidade de atendimento.

Pelo estudo, a previsão era que a maioria das mortes ocorresse na população não vacinada acima de 60 anos, para o qual a imunização segue aquém do ideal. Cerca de 216 milhões de idosos (82% dessa população) têm ao menos duas doses de vacinas, dos quais apenas 164 milhões (62% dessa população) tomaram a dose de reforço. Uma precondição importante para qualquer política de relaxamento na política de tolerância zero à Covid-19 é o aumento da cobertura vacinal dos idosos na China, algo que ainda deve levar meses para acontecer.

Se abandonar a estratégia de Covid zero parece estar fora de questão no atual momento, o centro das atenções volta-se para o quão distante da meta de algo em torno de 5,5% será o crescimento da China em 2022. Diversos indicadores apontam para a já esperada desaceleração da economia chinesa em resposta aos lockdowns.

O valor adicionado da indústria e as vendas de varejo declinaram pela primeira vez desde fevereiro de 2020, início da pandemia. E o setor imobiliário segue em queda livre apesar das diversas medidas de incentivo direcionadas a ele. O principal vetor positivo da economia chinesa —o setor externo— ainda cresce, porém a taxas menores.

Para os mais otimistas, a esperança é que, após a tempestade (dos lockdowns), venha a bonança (de crescimento), e que a desaceleração da economia seja temporária. Para os mais pessimistas, a desaceleração tem raízes estruturais, e o arsenal de políticas de estímulo que está sendo colocado —como investimentos massivos em infraestrutura, a redução de juros para empréstimos longos e hipotecas e a compensação de créditos tributários— ainda é muito tímido para reverter o destino de crescimento para a economia chinesa nos próximos anos.

Como segunda maior economia do mundo, a desaceleração da China acrescenta riscos à recuperação global no pós-Covid, especialmente para países emergentes e exportadores de commodities.

Se, para o Brasil, o cenário já era desafiador, com o aperto das condições financeiras internacionais e toda a volatilidade trazida pelo ciclo eleitoral, tem-se agora um terceiro ingrediente que é tão importante quanto os demais.


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