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Alemanha e Sri Lanka vivem o estrago da desinformação verde – 22/07/2022 – Leandro Narloch

Na Alemanha, a população teme ficar sem gás para aquecer as casas durante o próximo inverno; no Sri Lanka, o presidente renunciou e fugiu do país depois do preço dos alimentos saltar 80%. A desinformação propagada por ambientalistas ajudou a empurrar os cidadãos desses dois países para a crise.

O Sri Lanka anunciou em abril do ano passado uma medida que muitos ambientalistas brasileiros festejariam se fosse adotada por aqui: a proibição do uso de fertilizantes e pesticidas artificiais.

Apesar dos apelos de cientistas sobre a segurança das substâncias à saúde, o presidente Gotabaya Rajapaksa bateu o pé: o Sri Lanka seria o primeiro país do mundo a ter somente agricultura orgânica.

Ativistas comemoraram. “A transição a um Sri Lanka 100% orgânico significa a transição a uma economia da permanência e à economia de prosperidade para todos os seres humanos”, disse na época a ecofeminista indiana Vanada Shiva.

O ambientalista Andre Leu, da Austrália, previu que a decisão aumentaria a produção de alimentos, a renda, a biodiversidade do Sri Lanka e ainda melhoraria a balança comercial do país.

Bem, não foi exatamente assim. Em menos de um ano, a produção de chá (principal produto de exportação) caiu 18%, o preço do arroz dobrou, o do pão triplicou, o da cenoura e da batata se multiplicou por cinco.

Além de exportar menos, o país teve que importar mais alimentos. Esse resultado, aliado à queda do número de turistas causada pela quarentena contra o coronavírus, jogou o Sri Lanka na crise. Em maio, o governo anunciou o calote da dívida externa.

Sem dólares, o país não consegue importar produtos básicos como gás e gasolina. E a população, revoltada com os preços, filas e blecautes, invadiu o palácio do presidente —que ganhou o apelido de “Nero cingalês”.

A crise energética da Alemanha também tem o voluntarismo e equívocos ambientais em sua origem. Depois do acidente de Fukushima, em 2011, o governo alemão anunciou um plano de cancelar projetos de usinas nucleares e fechar as existentes. (Apesar da energia nuclear emitir quase zero carbono na atmosfera…)

Menos energia nuclear, mais dependência de gás da Rússia. De 2002 a 2022, enquanto a capacidade das usinas nucleares alemãs caiu de 22 para 8 gigawatts, a das térmicas a gás passou de 20 para 30 gigawatts.

O país poderia usar seu próprio combustível —estima-se que tenha uma reserva de 450 bilhões de metros cúbicos de gás de xisto. Mas adivinha: o processo para extrai-lo, o “fracking” (faturamento hidráulico, que tornou os Estados Unidos o maior produtor de hidrocarbonetos do mundo) foi proibido na Alemanha em 2017.

Com essas limitações autoimpostas, a Alemanha levou um 7 a 1 de si própria. Vulnerável demais a choques de oferta, não consegue deixar de depender do gás russo. Para evitar blecautes, teve que aumentar a produção nas usinas a carvão mineral, de longe o combustível mais poluente.

O problema não é só que as proibições no Sri Lanka e na Alemanha causaram crises de energia e de alimentos. Mas o fato de terem prejudicado tanta gente sem ajudar o meio ambiente, baseadas em ideias bastante discutíveis sobre o que é mais sustentável.


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