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Ansiosa por coisas novas – 14/04/2022

Amanheci hoje com uma frase nas redes do meu amigo Peu Fonseca, “Ansiosa por coisas novas”. Fiquei um tempo olhando para a tela do computador segurando esse stories, depois de ouvi-lo perguntar “Quem mais está se sentindo assim?”. Prontamente respondi “EU”.

Na mesma semana eu fiz um cálculo sobre os efeitos da pandemia na minha saúde emocional. O balanço é terrível até aqui, navego entre pedir o fim do mundo e uma esperança bem rasa de que as coisas melhorem logo e que gire o ano. Me falta um pouco de energia e me sobra raiva de quem falou sobre o novo normal em 2020.

Deu tempo de organizar todos os armários, deu tempo de aprender a cozinhar coisas novas, deu tempo de ver todos os filmes e séries possíveis. Deu tempo de pensar em deixar a casa com a minha cara. Deu tempo de escrever umas coisas, organizar um caderno de receitas. Deu tempo de fazer muita live — até algumas que eu não queria fazer — e deu tempo de escrever textos que me ajudaram a localizar a minha apreensão no mundo.

Mas não deu tempo de me preparar para viver coisas novas. Não tive esse tempo, não me acostumei a pensar no futuro como algo possível de ser diferente. E isso me traz até aqui, com umas manias, com uma lista enorme de tarefas de trabalho, mas parando para escrever sobre isso.

Um dia depois de responder uma amiga falando que não tenho esperança em sonhos, estou aqui falando sobre ansiedade de coisas novas. Eu disse para ela que estava cansada dessas construções que levam muito recurso e tempo para serem desenvolvidas e são desconectadas da vida real, da fome e da sede de sobrevivência. Não consigo mais construir a partir do vazio.

A pandemia veio para devastar nossas vidas, o Bolsonaro veio para devastar nossas vidas e tirar nossa possibilidade de sonhar. A possibilidade de olhar para um horizonte melhor com vida. Imaginar que em 2022 seguimos pedindo direito à vida e dignidade. A pandemia não nos ensinou nada, ela só deixou o cenário de terra arrasada de 2016 ainda pior com o tempo.

Chegamos ao ponto alto da desgraça, da morte e da calamidade. Ainda assim nos pedem para esperar, não é o momento de falar da morte de milhares de mulheres, não é hora de falar que os jovens morrem a cada minuto nas periferias, que os defensores das florestas estão morrendo dentro de casa na frente de seus filhos. Não vamos falar de fome se isso não capitalizar algo.

Não vamos falar nada agora, deixa que em algum momento da história a gente “deixa” vocês falarem algo. Mas cuidado, essa narrativa pode não ajudar agora, agora não é a hora. Calma!

Não aprendemos nada no sofrimento, não aprendemos nada com a história passada e a recente. Estamos aqui esperando viver novas coisas para que a vida caminhe para a mudança. Queremos sair desse abismo, mas não dando passos para viver a mesma lógica de 15 anos atrás — a ideia é ir para frente e não andar para trás.

Não é só a foto cheia de homens brancos que segue a mesma lógica, é a construção política de silenciamento e acusação que segue na mesma mesa. Os grandes decidem, não se ouve ou se deixa construir.

Precisamos encontrar esse tempo no hoje.

Por isso, estou ansiosa de viver coisas novas na vida e na política nacional. Uma nova comunicação, mas antes disso, que a gente se escute mais e se salve dessa lógica ultrapassada do tempo das coisas.

Chegando ao fim dessa reflexão confusa com o Peu, em um post dele que diz “Talvez seja preciso voltar ao solo fértil, ao húmus, antes de desejarmos ficar com os dedos (e corpos) eretos na direção alheia. Talvez precisemos nos desumanizar — colocar a alma de volta no corpo, renascer como animais que se lambem, se cheiram, se sentem.”

Talvez seja preciso a gente se desumanizar e provocar isso em quem nem imagina como seria.

Ansiosa por novos dias, mas com os dois pés no chão vivendo um dia de cada vez sem me assustar com o que não chegou por aqui ainda.



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