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Arábia Saudita deveria rever torneio de golfe – 23/06/2022 – Thomas L. Friedman

Em 1989, lancei um livro sobre o Oriente Médio, “From Beirut to Jerusalem”, e, depois que saiu, meu editor, Jonathan Galassi, quis saber do que trataria o próximo. Falei que queria escrever um livro sobre golfe. Ele me olhou com expressão perplexa e perguntou: “O Golfo Pérsico?“. “Não”, respondi. “Sobre golfe. Golfe.”

Digo isso porque tenho duas paixões: Oriente Médio e golfe. Fui sócio do Beirut Golf and Country Club –o único em que os jogadores gostam quando estão num bunker. Carreguei os tacos de Chi Chi Rodriguez no US Open de 1970, em Hazeltine. Houve uma vez em que eu e meu amigo Neil Oxman carregamos os tacos de Tom Watson e Andy North no torneio de seniores do Liberty Mutual Legends of Golf, e, apesar de eu ter passado com o carrinho em cima da bola de Andy num treino, ainda somos amigos.

Conheço o golfe e conheço o Golfo. Conheço o PGA e conheço MbS, e é por isso que escrevo hoje sobre a controvérsia que está tomando conta do golfe profissional: a criação de um torneio “dissidente” encabeçado por Greg Norman e Phil Mickelson e financiado pelo reino da Arábia Saudita, comandado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, conhecido como MbS.

O novo torneio recebeu o nome de LIV Golf International Series. É um exemplo clássico de “lavagem esportiva” idiota por parte dos sauditas, com a ajuda de alguns jogadores profissionais e desalmados.

A meu ver, é péssimo para o golfe e pior ainda para os sauditas. O evento está apenas chamando a atenção para algo que os sauditas estão tentando fazer as pessoas esquecerem –o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018—, em vez de chamar a atenção para algo que eles querem que as pessoas abracem: a Arábia Saudita como meca futura dos esportes e do entretenimento.

Se eu tivesse uma oportunidade de falar diretamente com MbS, lhe diria o seguinte:

Mohammed, você só tem uma chance de causar uma segunda impressão e a está desperdiçando indo para a cama com esses rebeldes, alguns dos quais estão entre os membros mais antipáticos do PGA Tour. Mas não vou falar desses jogadores de golfe hoje. Quero falar da Arábia Saudita.

A responsabilidade de seu governo pelo assassinato e esquartejamento de Khashoggi, que vivia na Virgínia e escrevia para o Washington Post, é uma mancha permanente que nunca vai desaparecer. Foi um ato de crueldade indescritível contra um crítico moderado do regime.

Mas isso não quer dizer que não haja nada que você jamais poderá fazer para alterar a visão que o mundo tem de seu país. O que você ainda pode fazer é continuar a impelir a sociedade saudita, seu sistema de ensino religioso, suas leis e seus mercados de trabalho no caminho das reformas. Essa seria uma contribuição importantíssima para seu país e para todo o mundo árabe-muçulmano.

A verdade é que você é responsável pelas reformas sociais e religiosas mais radicais da história moderna da Arábia Saudita: autorizar mulheres a dirigir carros; liberalizar o sistema de tutela masculina pela qual as mulheres precisavam receber permissão de homens para uma série de atividades de trabalho e deslocamentos; limitar o papel da polícia religiosa; permitir a realização de shows de rock, deixar as mulheres assistirem a partidas de futebol e autorizar a convivência normal entre meninas e meninos.

Essas reformas já deveriam ter sido feitas havia muito tempo. E ainda são insuficientes. Mas nenhum de seus predecessores ousou tentá-las, e as mudanças têm sido tremendamente bem recebidas, especialmente por parte das mulheres jovens.

Quando visitei a Arábia Saudita em 2017, uma empreendedora social saudita de 30 anos me disse algo que ficou na minha memória: “Temos o privilégio de fazer parte da geração que viveu o antes e o depois”. Sua mãe, ela disse, nunca saberia o que é dirigir um carro. Sua filha nunca conseguirá imaginar um dia em que uma mulher não pudesse dirigir. “Mas eu sempre vou me recordar de não poder dirigir.”

Em dezembro, no Festival Internacional de Cinema do Mar Vermelho promovido em Jiddah, minha amiga Dina Amer, cineasta americana de origem egípcia, mostrou-me seu maravilhoso trabalho novo, “You Resemble Me”, sobre a islamização e a radicalização de uma jovem franco-marroquina que morreu com um dos líderes dos ataques terroristas de novembro de 2015 em Paris. O filme estreou no Festival de Veneza. Mas teve sua première na Arábia Saudita, apesar de tratar de tema muito nuançado e sensível.

“Preciso destacar que a qualidade e o alcance do festival de cinema saudita foram comparáveis aos dos melhores festivais do mundo”, disse-me Dina. “Ver tantos diretores sauditas começando a poder contar suas histórias foi impressionante e me deu muita esperança.” Fiquei espantado quando Dina comentou que seu filme foi proibido no Egito, mas recebeu o prêmio do público na Arábia Saudita.

Steven Cook, especialista em Oriente Médio no think tank Council on Foreign Relations, e alguém que escreve sobre a Arábia Saudita porque realmente vai ao país, observou em artigo recente: “O príncipe herdeiro saudita pode ser odioso”, mas “há mudanças importantes na Arábia Saudita que críticos frequentemente minimizam de maneira leviana”.

Isso me traz de volta à série LIV Golf. Mohammed, quem quer que seja que lhe disse que patrocinar um torneio de golfe para prejudicar o PGA Tour —oferecendo valores absurdos a jogadores de golfe que na maioria ou estão em final de carreira ou são desconhecidos totais— deveria ser demitido sumariamente.

Não é fácil desembolsar US$ 1 bilhão para melhorar sua imagem e acabar só com publicidade negativa. Não é fácil, mas seu torneio de golfe o conseguiu. Em vez de os jornais estarem falando de todas as reformas religiosas e sociais empreendidas na Arábia Saudita, agora as páginas de esportes estão falando de seu assassinato de Khashoggi e do envolvimento de jihadistas sauditas no 11 de Setembro.

Há uma razão pela qual os jogadores mais respeitados, como Rory McIlroy, Justin Thomas e Tiger Woods, negam-se a participar de seu evento. Eles sabem identificar uma lavagem esportiva quando a encontram.

Então veja qual é a melhor dica de golfe e de Golfo que eu posso lhe dar: só há um jeito de fazer o mundo enxergar a Arábia Saudita sob uma ótica mais equilibrada, e ela não lhe custará um centavo.

Dê vistos de entrada a qualquer jornalista ou equipe de filmagem que queira ir à Arábia Saudita. Diga-lhes que estão livres para viajar a qualquer lugar do reino que quiserem e para entrevistar qualquer saudita.

Nem todas as reportagens serão simpáticas. Vocês lerão queixas sobre a falta de participação política, a ausência de uma imprensa livre, as detenções brutais de dissidentes e as várias violações graves de direitos humanos que continuam a acontecer. Mas você também verá jornalistas honestos que atestarão as amplas transformações econômicas, religiosas e sociais que seu governo deslanchou.

É o máximo que você pode esperar. Mas seria muitíssimo melhor do que desperdiçar bilhões comprando profissionais do golfe que não sabem nada sobre seu país, que dizem reservadamente que desprezam você e sua sociedade e que não têm credibilidade como testemunhas dos avanços realizados no país.

Cada vez que eles abrem a boca para explicar –com constrangimento evidente— por que estão aceitando suas pilhas de dinheiro, isso prejudica gravemente cada jovem saudita que luta por transformações no país e se beneficia delas. Nem mesmo seus piores inimigos no Irã poderiam ter traçado uma estratégia mais burra para persuadir o mundo a lançar um olhar mais profundo sobre a Arábia Saudita.

Mohammed, você precisa encerrar esse negócio de LIV. Cancelar. Os únicos embaixadores de qualquer valor para você são os próprios jovens sauditas dispostos a dizer a jornalistas independentes que as reformas que você deslanchou são profundamente significativas para suas vidas e sua região e, embora ainda sejam muito pequenas, constituem passos vitais na direção certa. Cada dia que o torneio LIV continuar será mais um dia que desvia a atenção das pessoas dessa realidade.

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