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As consequências econômicas de Liz Truss – 21/09/2022 – Martin Wolf

O país está voltando a uma vida mais normal. Mas não será tão normal. Liz Truss cuidará disso.

Na sexta-feira (23), Kwasi Kwarteng, chanceler do Tesouro, dará seguimento ao seu pacote de energia de emergência com um miniorçamento. Espera-se que este reverta o aumento das contribuições para o seguro nacional e impeça um aumento previsto do imposto sobre as empresas. Também estabelecerá uma meta de crescimento anual de 2,5%. Devemos levar isso a sério? Não e sim. Não, porque a ideia de que o governo de uma economia de mercado possa atingir uma meta de crescimento é ridícula. Sim, porque orientará as políticas. A questão é se irá guiá-las para o bem ou para o mal. Minha aposta é neste último.

Nem Hayek nem Friedman considerariam sensato ter uma meta de crescimento. Isso é planejamento. Hayek insistiria com razão que não temos o conhecimento nem as ferramentas para produzir um. Em Britannia Unchained [Britânia liberta], publicado em 2012 (dois de seus autores foram Kwarteng e Truss), o Brasil foi proposto como modelo. Dez anos depois, isso parece tolice.

Uma meta de crescimento não é apenas impraticável, mas um perigo. Suponha que Kwarteng diga ao Tesouro e ao Escritório de Responsabilidade Orçamentária que eles devem assumir essa meta em suas previsões (se tiverem permissão para fazer alguma). Se ele estiver errado, a deterioração das finanças públicas pode gerar uma crise de confiança, como aconteceu na década de 1970. Ele parece descartar tais preocupações como mero “gerencialismo”.

Então, deixemos o alvo de lado e consideremos a política. Truss diz que “o debate econômico dos últimos 20 anos foi dominado por discussões sobre distribuição”. No entanto, segundo a OCDE, o Reino Unido tem, depois dos Estados Unidos, a maior desigualdade na distribuição de renda familiar disponível entre todos os países de alta renda. As políticas de austeridade pós-crise de George Osborne também não estavam preocupadas com a “distribuição”. A visão de Truss do antigo debate no Reino Unido é uma pista falsa.

Precisamos reconhecer, em vez disso, que 40 anos depois o thatcherismo é uma ideia zumbi, por duas razões opostas –tanto o que foi alcançado quanto o que não foi.

Thatcher liberalizou os mercados de trabalho, restringiu os sindicatos, privatizou indústrias nacionalizadas e cortou as principais taxas de impostos. Suas políticas (que incluíam a promoção do mercado único da UE), bem como as de governos posteriores, também fortaleceram a concorrência nos mercados de produtos. De modo geral, o Reino Unido hoje é um país com baixos impostos, pelos padrões de outras economias de alta renda. Tem uma economia desregulamentada, na qual os bem-sucedidos são recompensados, mas os menos bem-sucedidos são penalizados. Tais objetivos thatcheristas são uma realidade hoje.

O que então Thatcher e aqueles que a seguiram não conseguiram alcançar? Não liberalizaram a maior distorção da economia, que é o uso da terra. Eles não transformaram os talentos da população, o que foi dificultado pelas condições em que muitas crianças crescem. Não conseguiram resolver os defeitos na governança corporativa, que tende para os gastos em vez de investimentos. Eles permitiram que a busca por segurança nas aposentadorias corporativas mudasse as carteiras da oferta de capital de risco às empresas para a propriedade de títulos do governo. Isso, na verdade, transformou os planos em esquemas de pagamento conforme o uso, apoiados pelo Estado.

Em geral, o desempenho econômico não foi transformado para melhor de forma duradoura. Em 2019, a produção por hora trabalhada no Reino Unido, em relação à França e à Alemanha, foi praticamente a mesma de 1979. Acima de tudo, a produtividade estagnou desde a crise financeira. O investimento é o menor em proporção do PIB entre todos os países de alta renda. O investimento empresarial permaneceu abaixo do seu pico em termos reais desde o referendo do Brexit. A implosão anterior do setor financeiro sob “regulamentação leve” não ajudou. Nem a austeridade pós-crise ou a loucura do próprio Brexit. A incerteza por si só é ruim para a confiança e, portanto, para o investimento.

A ideia de que mais cortes de impostos e desregulamentação (como aumentar o teto dos bônus dos banqueiros) transformarão esse desempenho é uma fantasia. O que é simples já foi feito. O que resta fazer é difícil. Para dar um exemplo: maior investimento requer maior poupança. De onde esta virá? Há também as complexidades ligadas às mudanças climáticas e à energia. Além disso, a evidência é que tanto o melhor desempenho econômico quanto a estabilidade política podem depender de uma menor desigualdade, e não maior do que o país já tem.

O governo Truss não está dedicado apenas a cortes de impostos e desregulamentação. Também continua a sugerir a possibilidade de romper com a União Europeia sobre o protocolo da Irlanda do Norte, o que também seria uma violação com os EUA. Isso prejudicaria a confiança na probidade do Reino Unido, aumentaria a incerteza, provaria que o Brexit não foi feito e sugeriria que o governo não pode viver com as escolhas que fez em sua própria política principal. Para ampliar tudo isso, Truss parece decidida a romper com a China também. Seu Reino Unido parece determinado a não ter amigos.

Além disso, os Conservadores ganharam a maioria sob Boris Johnson para concluir o Brexit, fortalecer o NHS (Sistema Nacional de Saúde) e “nivelar” as áreas mais pobres. Ao fazê-lo, criaram uma nova coalizão de apoiadores tradicionais com ex-eleitores trabalhistas. Hoje, o Brexit não está feito, o NHS está em crise e o nivelamento parece estar a caminho do esquecimento. Apenas 81 mil membros do Partido Conservador escolheram como primeiro-ministro alguém que nem sequer era a primeira opção de seus membros eleitos do Parlamento. Ela não tem mandato para as políticas que deseja seguir. É difícil imaginar algo melhor para exacerbar o cinismo difundido de hoje sobre política e políticos.

A confiança é fácil de destruir, mas difícil de recuperar. É por isso que manter a palavra é importante. Britânia não está “liberta”. Em vez disso, está navegando em águas perigosas. O novo capitão e primeiro imediato conseguem ver as rochas que estão à frente?

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves


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