Atentado à estátua de Chico Mendes é ‘recado’ a povos da floresta

A derrubada da estátua de Chico Mendes, em Rio Branco, foi entendida como um recado aos povos e entidades que lutam para manter vivo o lema do seringueiro e ambientalista morto em 1988: explorar a Amazônia sem a desmatar.

A estátua que foi alvo de atentado fica na praça Povos da Floresta, no centro da capital do Acre. Na noite da última sexta-feira (1º), ela foi arrancada e deixada no chão. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que informou, em nota, que apura o caso e está em busca de suspeitos.

“Por mais que tenha sido ação de vandalismo, representa o momento que estamos vivendo, não só em nosso estado, como também em nosso país”, afirma Elenira Mendes, filha de Chico.

À coluna, ela diz que uma ação desse tipo ocorre por “falta de comprometimento com as políticas ambientais, o desrespeito com todos que se dedicam aos cuidados de nossas florestas e meio ambiente”.

Eu vejo como uma tentativa incansável de apagar a história de luta e legado do meu pai. Ele foi assassinado pelos mesmos interesses que alimentam e sustentam esse governo. Insatisfeitos, tentam deletar da história sua força e sua mensagem para humanidade.”
Elenira Mendes, filha de Chico Mendes

Para Cosmo Capistrano da Silva, da coordenação regional da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Acre, o episódio vai muito além de um ato de vandalismo. “Eles estão fazendo isso conosco, porque essa história [de Chico Mendes] faz parte da gente.”

Ainda jovem, Capistrano participou de embates em defesa da floresta e recorda que uma fala de Chico que marca o coordenador até hoje.

“A gente ouvia dele, em algumas palestras, que ninguém matava a luta; poderiam matá-lo —como mataram mesmo— mas a luta nunca iam matar. E realmente a luta continua, e nós fazemos parte disso”, afirma. “Eles estão ameaçando, dizendo que são capazes de fazer [derrubar, como a estátua] também conosco. Nós fazemos parte da luta que Chico travou. A gente sabe que isso foi a mando de alguém.”

Casa onde Chico morou e foi morto hoje é um museu em Xapuri (AC)   - Iphan - Iphan

Casa onde Chico morou e foi morto hoje é um museu em Xapuri (AC)

Imagem: Iphan

Ex-colegas de Chico citam intimidação e descaso

O advogado e agrônomo Gumercindo Rodrigues, que foi parceiro e assessorou Chico Mendes em Xapuri (AC), diz que o vandalismo contra a estátua é parte de uma política para desconstruir os ideais de desenvolvimento sustentável. “Há uma ideia política por trás disso”, avalia.

Ele afirma que o abandono de políticas locais de sustentabilidade não é recente. “O abandono é uma forma de deixar tentar destruir; mas não vão conseguir.”

Para Julio Barbosa Aquino, ex-prefeito de Xapuri e secretário-geral da Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes, o atentado teve como objetivo “assassinar a história de Chico depois de 30 anos”.

“Eles querem fragilizar o movimento dos povos da floresta em defesa da Amazônia. É isso que temos visto nesses últimos tempos. Há um processo de vandalizar o Brasil, principalmente quando se fala em defensores do meio ambiente.”

Segundo ele, hoje os defensores da floresta vivem como na época de Chico —há mais de 30 anos.

Vivemos sob forte ameaça, mas a nossa luta não pode parar. Temos de persistir. Eles tentaram nos calar quando mataram Chico, mas não conseguiram. Então eles continuam nos perseguindo, e não podemos deixar.”
Julio Barbosa Aquino, ex-prefeito e integrante da associação de moradores

A morte e o legado de Chico

Seringueiro, sindicalista e ambientalista, Chico Mendes foi morto no quintal dos fundos de sua casa em Xapuri, em 1988.

“Eles me acertaram”, disse ele, após ser alvejado. Defensor da floresta, já havia sido alvo de inúmeras ameaças de morte por causa de sua luta ambiental.

Chico Mendes em 1988 - Miranda Smith/Wikimedia Commons - Miranda Smith/Wikimedia Commons

Chico Mendes em 1988

Imagem: Miranda Smith/Wikimedia Commons

Em 22 de dezembro, foi atingido com tiros de escopeta por Darci Alves, que agiu com o pai, Darly Alves, um conhecido grileiro de terras da região. Eles foram condenados a 19 anos de prisão.

Após a morte do ambientalista, foi fundada a Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex), em 1990, que tem 970 mil hectares e se tornou uma referência em proteção ambiental com uso consciente da floresta.

A derrubada da estátua repercutiu entre políticos, líderes de povos da floresta e artistas.

Veja algumas manifestações:



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