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Bolsonaro irrita evangélicos por banalizar o cristianismo – 04/05/2022 – Juliano Spyer

Na guerra cultural que tomou conta do país nos últimos anos, uma pessoa que não convive nem quer conviver com evangélicos acha razoável descrever esse grupo como “zumbis bolsonaristas”. Faz isso sem se dar conta de como muitas igrejas hoje estão rachadas por dentro por causa da política.

O uso do termo “evangélicos” não ajuda a combater os estereótipos sobre esse grupo porque dá uma ideia de homogeneidade que não existe. Mas dizer que um evangélico é bolsonarista por ser evangélico é como dizer que o muçulmano, por ser muçulmano, é terrorista. É uma generalização desinformada e preconceituosa.

Numericamente, a preferência entre Lula e Bolsonaro esteve dividida meio a meio no início do ano. A explicitação de que muitos evangélicos desaprovam o governo Bolsonaro levou lideranças evangélicas bolsonaristas a realizar uma cruzada nas redes sociais para questionar a idoneidade dos institutos responsáveis pelas pesquisas e repetir o mote de que “cristão não vota na esquerda”.

Mas o clima de tensão —e o desgaste causado pela política— ter tomado o espaço da religião nas igrejas é mais intenso do que a percepção genérica de “insatisfação” captada pelas pesquisas. Esses dados numéricos não traduzem, por exemplo, o clima de policiamento ideológico nesses espaços de fé, que constrange ou tenta constranger evangélicos que rejeitam Bolsonaro a mudar de posicionamento ou a se calar.

E o evangélico comum, que provavelmente conhece mais sobre a Bíblia do que a maioria dos leitores desta coluna, percebe como o interesse do presidente pelo cristianismo é pragmático. Ele é católico apesar de ter sido “batizado em águas” três vezes, tem uma postura truculenta que destoa da do evangélico, conhece a Bíblia superficialmente e defende que a solução para o problema da violência no país é armar a sociedade.

A aproximação entre Bolsonaro e algumas lideranças evangélicas, especialmente do campo pentecostal, também cria um problema de imagem pública para evangélicos. Os vários escândalos envolvendo lideranças religiosas —como o aparelhamento do MEC para a distribuição de verbas públicas por pastores — confirmam a visão negativa que a sociedade tem sobre evangélicos, a de que eles são moralistas hipócritas, têm projetos pessoais de poder ou querem usar o Estado para cristianizar a sociedade.

As igrejas evangélicas estão ameaçadas internamente de ruptura, a partir desse envolvimento com a política, por causa do ambiente hostil que se estabeleceu entre membros e, publicamente, pela má fama que cristãos evangélicos estão herdando pelo apoio de algumas lideranças a um político que não é evangélico e representa, em muitos aspectos, a antítese do cristianismo.

Você, o leitor, pode constatar esse tensionamento perguntando a evangélicos e evangélicas conhecidos como a antipatia a Bolsonaro vem crescendo entre eles pela percepção de que o presidente banaliza o cristianismo. Igrejas que, antes de Bolsonaro, eram espaços de acolhimento, cultivo de amizades e busca de pacificação interior viraram palco de disputas e de convívios estressantes.

Esse é o preço de uma campanha contínua e insistente, feita para convencer esse público de que Bolsonaro não é o pior, mas o menos pior entre os candidatos. Faz isso exacerbando a importância das pautas morais para demonstrar que cristãos não podem votar na esquerda. E, se esse argumento não convence milhares de evangélicos, que são predominantemente pobres, ele atenua ou disfarça a insatisfação provocada pela fome, que voltou a fazer parte do cotidiano dos brasileiros da base da pirâmide social.

Mesmo a enfatização artificial da importância das pautas morais impressiona mais quem não é evangélico do que os próprios fiéis. Serve como cortina de fumaça para esconder as muitas diferenças entre o que pregam os pastores e aquilo que os evangélicos vivem no campo da moral.

A antropóloga Lorena Mochel, da Unicamp, escreveu recentemente no Observatório Evangélico sobre como as falas da ex-ministra Damares Alves, defendendo a abstinência sexual para evitar a gravidez, destoam do que ela, Lorena, constatou em sua pesquisa: “casais evangélicos pentecostais falam sobre sexualidade em seus cotidianos [e] … sobre prazer e prevenção”.

Como artifício de comunicação, o que funciona especialmente nos círculos pentecostais, são as teorias conspiratórias que pegam carona na ideia, presente no pentecostalismo, de que os cristãos são perseguidos pelo sistema.

O pastor Alexandre Gonçalves, que é pentecostal e lidera o Movimento Cristãos Trabalhistas do PDT, contou em seu blog como a mesma Damares se tornou conhecida dizendo que a empresa Disney queria “implantar o homossexualismo” e que existe uma rede de pedofilia que domina o mundo.

Os artifícios disponíveis para manter a pressão sobre os evangélicos —as táticas e os temas— já estão no tabuleiro. Isso leva à pergunta: a campanha do presidente conseguirá continuar constrangendo evangélicos a silenciarem seu desconforto? Ou a longa exposição desses artifícios produzirá anticorpos e dessensibilizará o público para teorias conspiratórias ligadas a pautas morais? E em que medida a irritação causada pela politização excessiva do ambiente religioso começará, mesmo silenciosamente, a atuar contra o presidente?


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