Brasil pode unir desenvolvimento e adaptação ao clima, diz ex-ministra

Esta é parte da versão online da edição desta quinta (18) da newsletter Crise Climática. A versão completa, apenas para assinantes, apresenta ainda um estudo da Nature sobre como o maior manto de gelo do mundo, na Antártica Oriental, depende das metas do Acordo de Paris para não derreter; indica uma ferramenta de pesquisa sobre como cada parlamentar atuou em questões ambientais; e trata sobre a grilagem que está correndo solta em Alter do Chão. Para assinar o boletim, clique aqui.

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O verão extremo no Hemisfério Norte mudou o tom dos ativistas ambientais dos países ricos. A adaptação às mudanças climáticas —um tema que por anos foi visto como uma agenda doméstica dos países mais vulneráveis (leia-se, países do Sul global)— agora é vista como prioridade no mundo desenvolvido.

Por lá, muitos já falam que é preciso admitir a possibilidade de descumprimento temporário da meta do Acordo de Paris (teto de 1,5ºC de aquecimento global) e estabelecer estratégias para mitigar ao máximo esta ultrapassagem e se adaptar rapidamente para este excesso de aquecimento.

Olhando em retrospectiva, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira afirma que o Brasil tinha, no momento da assinatura do Acordo de Paris, uma visão de que a agenda de adaptação às mudanças climáticas era, em si mesma, uma trilha de desenvolvimento. “Isso mudou com o atual governo, mas o setor privado, a academia e a sociedade civil organizada continuam tendo esta visão.”

A mudança do clima é um vetor para uma nova agenda de desenvolvimento no Brasil
Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente

Teixeira liderou a delegação brasileira nas negociações decisivas de Paris, e destaca que o Brasil foi o primeiro país em desenvolvimento a apresentar uma NDC (como é chamada a meta climática nacional dentro do Acordo) do tipo economy wide, isto é, que vale para todos os setores da economia.

“Além disso, a gente usou as recomendações do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática], valorizando a análise científica. Isso causou um desconforto em muita gente no exterior”, diz a ex-ministra, destacando o papel estratégico que os pesquisadores brasileiros que fazem parte do IPCC tiveram neste processo.

izabella - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

A bióloga Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, em foto de 2021

Imagem: Arquivo Pessoal

“Em 2015, um país da Europa não sabia o que era vulnerabilidade climática. Eles estavam discutindo a liderança de tecnologias energéticas. Hoje os rios da Europa estão secando, várias partes dos EUA estão queimando”, afirma Teixeira ao explicar porque o tema da adaptação começa a ganhar espaço no Norte global. Segundo ela, o Brasil foi o primeiro a apresentar um plano de adaptação junto com sua meta de clima.

“Este plano surgiu porque havia uma mobilização para lidar com a adaptação, tanto pelas vulnerabilidades climáticas, como pela necessidade de desenvolvimento social, e também porque o Brasil é um país urbano com mais de 8 mil quilômetros de costa intensamente povoada”, explica.

Isso permitiu que atores subnacionais tivessem um papel de destaque, recorda a ex-ministra. “A mobilização de governadores pelo clima hoje vem como resistência ao Bolsonaro, mas naquela época os governos estaduais e municipais estavam falando de BRT [ônibus de trânsito Rápido], VLT [veículo leve sobre trilhos], metrô, minha casa minha vida com painéis solares, entre outras ações que somavam adaptação, combate à mudança climática e desenvolvimento.”

Atualmente, o Brasil está bastante atrasado na tarefa de se adaptar à mudança climática, avalia Teixeira. Na área de mudança do uso do solo, maior fonte de emissões brasileiras de gases de efeito estufa, o país fracassa por ter acelerado o desmatamento em vez de combatê-lo.

Já o Plano ABC, um esquema de mitigação e adaptação à crise do clima para a agropecuária e que será lançado em setembro, falha, na opinião da ex-ministra, ao não ser um plano nacional de produção de alimentos. “O quanto o Plano ABC vem de fato para mudar a forma com que se faz agricultura neste país? Ele está atrelado ao crédito rural, com incentivos e restrições, por exemplo?”, indaga.

Na área de energia, em que o Brasil estava confortável há até poucos anos por usar poucas termelétricas e por ter um sofisticado planejamento energético, houve um desmonte na opinião de Teixeira. “Se a modelagem aponta para um risco hídrico, a principal cautela a ser adotada é o cuidado na hora de despachar a água para gerar a energia. Nós vimos foi o contrário: águas liberadas ao máximo”, recorda.

Este comportamento sugere que despacharam ao máximo, gerando escassez hidrelétrica, para que a remuneração pelo preço da energia fosse mais alta depois. Ou seja, tem muita gente ganhando dinheiro com esses erros
Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente

Para Teixeira, a adaptação das cidades brasileiras e a criação de sistemas de alerta efetivos depende de mudanças culturais profundas em duas frentes: treinar as pessoas para identificar riscos, como nos países sensíveis a terremotos, por exemplo, o Japão e o Chile. Na outra ponta, as classes ricas, altas e médias teriam que abandonar a resistência a políticas sociais.

“Da maneira como está, não só a Brasília Teimosa, em Pernambuco, que vai inundar. Vai inundar também a garagem de muita gente rica do Leblon e de Ipanema. Achar que morar numa cobertura te torna imune é um erro”, afirma a ex-ministra, que defende a urgência de reformas urbanas. “Muitas das nossas vulnerabilidades climáticas têm a ver com uma resistência às mudanças. Como é possível que nossas cidades ainda tenham a fiação elétrica exposta e pouco tratamento de esgoto? A adaptação é urgente para a sociedade como um todo, não apenas para os mais vulneráveis.”

E o que mais você precisa saber

calor europa - Philippe Lopez/AFP - Philippe Lopez/AFP

Onda de calor na Europa

Imagem: Philippe Lopez/AFP

TROVOADA SECA

Mais de 60% do continente europeu está sob extrema estiagem – possivelmente a mais severa em 500 anos, segundo avaliação preliminar do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia (EC-JRC). Os meteorologistas preveem que as condições de seca devem se manter até setembro. Setores atingidos em cheio incluem vinho, azeite, óleo de girassol, laticínios, frete fluvial, a logística industrial alemã e o turismo. E houve quem dissesse que eliminar os combustíveis fósseis para frear as mudanças climáticas sairia caro demais.

água - Imani/Unsplash - Imani/Unsplash

Água da torneira

Imagem: Imani/Unsplash

PÚBLICO OU PRIVADO?

O chuvoso Reino Unido declarou situação de estiagem em partes da Inglaterra na sexta-feira (12), com os reservatórios registrando a maior baixa em 25 anos. A situação desencadeou um debate sobre a reestatização dos serviços de abastecimento, em meio à corrida para escolha do próximo primeiro-ministro. A discussão é reforçada pelo contraste com a Escócia – o país é parte do reino, mas manteve seu serviço de água sob domínio público e registra agora baixas taxas de perda de água por vazamentos em comparação com a Inglaterra. A imprensa britânica repercute argumentos contrários e favoráveis à reestatização, incluindo The Guardian, The Independent, The Times e iNews.

fumaça queimadas - Jin Linpeng/Xinhua - Jin Linpeng/Xinhua
Imagem: Jin Linpeng/Xinhua

ARGENTINA EM CHAMAS

Um tema ambiental entrou na pauta de grandes protestos na Argentina: as queimadas provocadas pelo agronegócio e concentradas principalmente às margens do rio Paraná na região de Rosário. Segundo o Observatório Ambiental da Universidade Nacional de Rosário, o fogo já consumiu 10 mil hectares e está causando intoxicações na população local, com a fumaça chegando à capital Buenos Aires, distante quase 300 km. Imagens compartilhadas nas redes sociais mostram a magnitude das plumas de fumaça tóxica.

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