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Brasil, ressaca depois do estelionato – 07/07/2022 – Vinicius Torres Freire

O consumo e o emprego no segundo trimestre andaram quase no mesmo ritmo do início do ano, segundo indicadores e medidas de grandes bancos que tentam antecipar as medidas bem mais amplas e “oficiais”, as do IBGE. Não dá para dizer grande coisa do PIB, que depende muito de números de investimento e comércio exterior. Mas, em termos de temperatura econômica “nas ruas”, a situação não mudou grande coisa.

Na economia do dia a dia e de percepções de curto prazo, que interessam mais à política, esses indicadores de instituições financeiras sugerem que não teria havido impacto negativo na situação eleitoral de Jair Bolsonaro _ao contrário.

Por ora, as previsões de PIB no vermelho (tamanho da economia encolhendo) no terceiro trimestre também ainda não parecem à vista. Podem ser ainda mais adiadas, graças às reduções de impostos e aos aumentos de gastos, como o aumento do Auxílio Brasil e outros previstos na PEC “dos Bilhões”, “Kamikaze” ou o nome que se dê.

Essa proposta de emenda à Constituição deve ser aprovada e sancionada na semana que vem. O governismo decidiu adiar a votação por precaução (nesta quinta-feira, não havia folga suficiente de votos, deputados presentes o bastante).

Os indicadores de condições financeiras da economia, porém, continuam a azedar. Isto é, o óleo que faz o motor da economia girar mais suave ou rapidamente está acabando ou queimando. Juros no Brasil, juros no mundo, risco Brasil, preço do dólar, preço de commodities, preço das ações nas Bolsas, tudo tem piorado.

O real voltou a se desvalorizar rapidamente, as taxas de juros no atacadão de mercado de dinheiro subiram (a “curva a termo”), preços de commodities relevantes para o Brasil começaram a andar de lado ou a cair, as taxas de juros das economias ricas ainda vão aumentar (na eurozona, o show nem começou ainda).

Afora milagres ou reversões abruptas, não há como evitar uma desaceleração econômica aqui no Brasil também, em algum momento entre este segundo semestre e o primeiro do ano que vem, com algum risco de pequena recessão em 2023.

Além de todo entulho, da crise crônica, há outros problemas encomendados recentemente para 2023, como receitas menores e gastos maiores, estados e municípios tendo de apertar os cintos, graças às baixas do ICMS (e o primeiro corte virá, claro, nos investimentos em obras e equipamentos).

A incerteza a respeito de como vão ser consertados ou remendados estragos novos e velhos deve colocar mais areia no motor, assim como a desmoralização extra da política econômica por causa dos estelionatos do bolsonarismo.

Em resumo, isso quer dizer que a ressaca pós-eleitoral vai ser maior. O problema vai ser parecido tanto no caso de reeleição de Bolsonaro como em caso de vitória da oposição, de Lula da Silva (PT), mais provavelmente. Bolsonaro terá apenas o problema adicional de confirmar inteiramente o estelionato, cortando o Auxílio Brasil, elevando impostos e fazendo o arrocho adicional necessário, ou de dobrar a aposta, adubando a ruína.

Recorde-se que ainda estão no programa de promessas o reajuste dos salários dos servidores e pressão maior de gastos (ou de gastos ineficientes) com o aumento do valor do pacote de emendas parlamentares, para ficar no básico.

Além do mais, a conta de juros da dívida pública vai aumentar para valer a partir do trimestre final deste ano, com o que o déficit do governo será maior. Caso o IPCA passe a aumentar menos mesmo, o aumento de receitas e a engorda artificial do PIB devidos à inflação vão ter fim. A dívida pública vai voltar a crescer de modo preocupante. Isso não vai prestar.


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