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Cenas de violência mostram que absurdo está virando normal no futebol – 02/05/2022 – Renata Mendonça

As imagens falam por si. Ao ser corretamente expulso de jogo na final do Campeonato Pernambucano contra o Retrô, Jean Carlos parte para cima da árbitra Deborah Cecília. Não há outra maneira de descrever a cena senão essa.

Ele não encosta nela, mas sua reação é completamente desproporcional e violenta. Isso ainda sem entrar no mérito do absurdo que é Jean Carlos contestar a decisão da arbitragem no lance. A expulsão foi pela cotovelada que ele deu no rosto do jogador do Retrô em um lance ainda no primeiro tempo.

Jean sabia que o jogo estava sendo transmitido em rede nacional. Câmeras não faltavam para flagrar o momento em que ele ergueu o cotovelo e atingiu o adversário. Mas o meia discordou da interpretação da árbitra. Até aí, está no seu direito. Ninguém é obrigado a concordar com a decisão da arbitragem o tempo todo. Mas respeito é bom e, acima de tudo, é necessário.

Se Deborah Cecília fosse um homem, a atitude de Jean Carlos já seria inadmissível. Sendo ela uma mulher, fica evidente, além do desrespeito, a covardia. O jogador precisou ser contido por quem estava em volta (auxiliar de arbitragem, jogadores do Retrô e do próprio Náutico). No dia seguinte, justificou:

“No momento em que Deborah me deu o cartão, eu fui, sim, para cima, mas em forma de reclamação, como qualquer outro jogador indignado no começo de uma partida, em uma final de campeonato, poderia fazer”.

Qualquer outro jogador indignado PODERIA FAZER? Por essa frase, percebe-se que o futebol brasileiro normaliza o absurdo. Nenhum jogador indignado pode partir para cima de nenhum árbitro ou árbitra durante o jogo ou depois dele. Não interessam as circunstâncias, ainda que haja erro na decisão da arbitragem (o que não foi o caso da expulsão de Jean), nada justifica a reação violenta, desrespeitosa e desproporcional que as imagens mostraram.

Não, Jean Carlos, nem você, nem qualquer outro jogador podem reagir dessa forma. Estar indignado não o exime de manifestar respeito pela autoridade de quem apita a partida (aliás, por qualquer ser humano).

Por aqui, é comum ver jogadores reclamando a cada apito da arbitragem durante o jogo. Questionam a marcação da falta, o cartão, o pênalti dado ou não dado… Colocam a mão para trás muitas vezes no que seria um “sinal de respeito” enquanto gritam e esbravejam para cima do árbitro. No futebol brasileiro, as partidas param o tempo todo não só pela qualidade ruim da arbitragem muitas vezes mas também porque os jogadores não deixam o jogo fluir. Tudo é motivo para reunir o “comitê” em torno do árbitro e questioná-lo.

Só que essa forma de questionar já está ultrapassando os limites em alguns momentos. Em outubro do ano passado, um árbitro da segunda divisão do Campeonato Gaúcho foi espancado dentro de campo por um jogador do São Paulo-RS durante uma partida e ficou desacordado.

Neste ano, o Campeonato Capixaba também ficou marcado por um episódio de violência do treinador da Desportiva Ferroviária, Rafael Soriano, que deu uma cabeçada na bandeirinha Marcielly Neto.

Agora, outra cena chocante no Campeonato Pernambucano, que só não chegou à agressão física porque quem estava perto conteve o jogador do Náutico imediatamente. São três episódios inadmissíveis de reações violentas e desrespeitosas à arbitragem em três competições profissionais do futebol brasileiro, uma em cada região do país (Sul, Sudeste e Nordeste) num período de sete meses.

Já ultrapassamos todos os limites. Se jogadores e técnicos querem uma arbitragem mais qualificada –uma reivindicação justa, diga-se–, não é reagindo assim que vão conseguir. Respeito é o mínimo.


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