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Com Rensga Hits, Globo chega de novo atrasada ao sertanejo – 12/08/2022 – Gustavo Alonso

Na semana passada foi lançada no Globoplay a série “Rensga Hits!”, sobre o mundo sertanejo. A série, que segue a linha do melodrama, conta a história de Raíssa, interpretada por Alice Wegmann, que abandona o noivo no altar e foge para Goiânia para tentar a vida musical.

Ao chegar à capital, num enredo muito mal contado, a cantora se enfronha num bar —que em nada se parece com um bar goiano— e tem uma música autoral roubada por um compositor frustrado que trabalha em escritórios de música sertaneja. Ao reclamar do roubo, Raíssa consegue entrar para um desses escritórios, o tal Rensga Hits, e vira proletária da canção, compondo músicas para outras cantoras.

A trajetória de Raíssa é o mote para abordar o mundo das mulheres na música sertaneja. O enredo das personagens coadjuvantes também retrata aspectos dessa temática. A cantora interpretada por Lorena Comparato briga por espaço num meio preconceituoso. A atriz Jeniffer Dias interpreta uma cantora que, apesar de cantar mais que o irmão parceiro, ganha menos que este.

O elenco é composto em grande parte por mulheres. As atrizes Deborah Secco e Fabiana Karla são donas dos escritórios que disputam a cena sertaneja da série. Até Lúcia Veríssimo, atriz de importante trajetória associada à música sertaneja dos anos 1990, aparece, interpretando a mãe de Raíssa.

A Globo mantém sua tradição de chegar atrasada ao mundo sertanejo. O feminejo é hegemônico desde pelo menos 2016. Demorou seis anos para produzirem uma série explicitamente sobre o tema. No mundo volátil da cultura pop, é muito tempo. Para compensar a demora, veio o exagero de mostrar um mundo sertanejo demasiadamente feminino. Embora a música sertaneja esteja mudando, isso ainda não corresponde à realidade. Seja como for, a função do melodrama é também a de tensionar mudanças.

A Globo lançou os dois primeiros episódios na TV aberta. Até agora, seis episódios estão disponíveis no Globoplay, num total de oito prometidos. Curiosamente, os dois primeiros episódios foram os piores da série. Numa tentativa de acelerar a história, o roteiro mostrou-se fraco e cheio de furos. Mas, ao longo da narrativa, especialmente a partir do terceiro episódio, as coisas foram se encaixando melhor, com destaques para as atuações de Wegmann e Comparato.

A repercussão nas redes sociais foi ambígua. Muitos se perguntaram o que significa “rensga”, gíria que para alguns goianos estaria até ultrapassada. “Rensga” é uma expressão usada para demonstrar espanto, do tipo “nossa!”. Outras regiões do Brasil têm gírias semelhantes, como o “égua” maranhense ou o “nu” mineiro.

Para boa parte da plateia goiana, o uso da gíria na série não correspondeu bem à realidade. Logo no primeiro episódio, a personagem de Lúcia Veríssimo, ao ver a filha abandonar o altar e fugir da igreja, grita “rensga!”, num tom indignado que parece querer substituir um xingamento. Não é assim que a gíria é usada e isso parece ser fruto da pouca intimidade da equipe de filmagem com a região.

A produção da Globo veio de fora. Os diretores Leandro Neri e Carol Durão e a roteirista principal Renata Correa são cariocas. Havia pouquíssimos membros da produção que de fato eram de Goiás. Isso não seria um problema se de fato houvesse sintonia com o mundo sertanejo.

Isso parece ter refletido na escolha de apenas um ator goiano para a série, Alejandro Claveaux, que interpreta um cantor em conflito com sua homossexualidade enrustida. O sotaque de Claveaux é mais natural. Quase todos os outros exageram demais nas inflexões e as diferenças entre o sotaque da capital e do interior roceiro estereotipado ficam dissolvidos diante dos ouvidos sudestinos.

Toda vez que a Globo retrata outra região do país, há divergências em torno dessa representação. Há décadas os nordestinos reclamam de como seu sotaque é reproduzido nas novelas. Seja como for, o fato de a produção ser carioca não necessariamente deveria simplificar a identidade regional. O diretor Breno Silveira, que também foi criado no Rio de Janeiro, conseguiu a proeza de fazer Goiás e o Brasil inteiro se verem retratados em seu “Dois Filhos de Francisco”, de 2005.

Há de se considerar que a Globo deu um passo à frente. O outro tem que ser dado pelos produtores locais. Com tantos escritórios, know-how de gravação de DVDs e clipes, alto nível de produção audiovisual e musical, por que que não houve ainda nenhum goiano capaz de contar suas histórias sertanejas para o Brasil, sem estereótipos e simplificações?

É uma via de mão dupla que precisa ser construída, e apenas reclamar da Globo não leva a quase nada construtivo. “Rensga Hits!” é uma tentativa que tem seus méritos. Quem se habilita a contar melhor?


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