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Como seria reação da internet se morte de Daniella Perez fosse hoje? – 02/08/2022

Eu tinha 10 anos de idade e estava sozinha no andar de cima do sobrado da minha avó quando vi a revista. Era Réveillon, a casa estava festiva e eu não falei para ninguém que tinha visto o corpo morto da atriz da novela em uma foto. Depois, tive pesadelos recorrentes com aquela imagem e com os assassinos: um moço que também trabalhava na novela e sua mulher. Se o crime fosse hoje, três décadas depois, onde as crianças estariam acidentalmente vendo essas fotos?

Quando Daniella Perez foi assassinada em 1992, as imagens do crime estavam por todos os lados. Elas também ilustram várias cenas do documentário Pacto Brutal, sucesso recorde da HBO Max nesse 2022. É impossível ver a série sem pensar em tudo o que seria diferente hoje em dia: com um celular na mão, por exemplo, talvez Daniella não tivesse caído na emboscada do colega de elenco.

Hoje seria difícil que tantos fatos acontecessem sem documentação, como diz Paulo Freitas, advogado assistente de acusação do caso à época, no quarto episódio da série. Mas após o crime, como seria o comportamento das testemunhas se elas tivessem informação ao alcance do celular?

Culpa da vítima e o pouco que evoluímos

Há trinta anos, Daniella foi criticada por estar um lugar ermo no momento em que foi morta. Hoje, as pessoas ainda perguntam nas redes sociais sobre roupas e atitudes de vítimas, tentando legitimizar ações de criminosos. Quer mais? Algumas revistas sem credibilidade da época deram capas e mais capas de uma história inventada pelo assassino de que ele e Daniella Perez teriam um caso. Hoje, notícias falsas são praticamente legalizadas — praticadas inclusive por políticos. Qualquer perfil em rede social posta histórias mentirosas que não deveriam ser publicadas. Tudo pelo clique, pelo like, pela viralização.

O que se faria com o cadáver de Daniella nas redes sociais hoje em dia? Quantas vezes alguém de seu círculo compartilharia aquelas fotos no grupo da família e faria piadinhas indecentes sobre o assunto?

Na cadeia, o homem que, com a esposa, tirou a vida de Daniella, virou celebridade. E, claro, gostou disso. Fábio Assunção diz ter ficado chocado quando, horas após o crime, ele não se mostrava arrependido — apenas afirmava ter estragado a própria vida e não a da mulher que havia acabado de matar. “Egoico”, diz Fabio. Pouco depois ele foi solto, passou alguns dias foragido. Ainda deu entrevistas. Hoje, faria lives. Corrigindo: ele faz lives, já que, diferentemente de Daniella, está vivo e foi solto apenas sete anos depois de ter cometido o crime.

Lucélia Cordovil, jornalista que o entrevistou várias vezes, afirma que ele queria ser famoso e tinha conseguido o que queria: esperando o julgamento, estava fazendo um sucesso danado. Recebia cartas, visitas de fãs e muitos pedidos de casamento.

Hoje em dia, um homem filmado estuprando uma mulher durante o parto ganha seguidores nas redes sociais. Mudamos muito pouco — se é que mudamos.

Para descobrirmos em que lugar escabroso da história estaríamos hoje, é só olhar as redes sociais. Estamos do lado que condena mulheres por estupros que elas sofreram, por agressões que ninguém jamais mereceria e por diversos tipos de abusos. Não aprendemos nada.

Aqueles que não mencionamos

O documentário preferiu não entrevistar o casal que matou Daniella pelo mesmo motivo que esse texto não menciona seus nomes. O ex-ator, inclusive, se comporta como um atirador adolescente de escola nos EUA que não se arrepende do crime que colocou seu nome na história. Nos Estados Unidos, há uma política de não mencionar o nome dos assassinos adolescentes que chacinam colegas para que eles não tenham a glória de ver seus nomes atrelados à repercussão de seus crimes.

Aqui, 30 anos depois, o homem que matou Daniella Perez tem um séquito de fiéis em sua igreja. Faz da fé e da redenção uma bandeira para deixar a si mesmo em evidência. É ainda hoje assistido em vídeos caseiros na internet por quase meio milhão de pessoas. Dentre diversas controvérsias, defende o atual presidente da república, Jair Bolsonaro.

Mesmo antes de assistir as cinco horas do documentário, quando se falava na morte da filha da escritora Glória Perez, eu pensava imediatamente nas fotos que havia visto na casa de minha avó há 30 anos. Eu me lembrava mais de Daniella morta do que dela viva. Pacto Brutal acerta em mostrar as cenas dela rindo, dançando, feliz da vida — tudo que seus assassinos tentaram enterrar. Que falemos mais de Daniellas e menos de quem foi condenado por ter feito algo brutal. Que não dê clique, like, audiência, nem venda revista. Tudo bem.

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