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Desejar e querer são sinônimos, mas têm vários sentidos – 11/06/2022 – Ricardo Araújo Pereira

Se eu tiver de indicar o ponto em que as coisas começaram a correr mal, diria que foi quando o caixa do supermercado me perguntou:

“Deseja um saco?”

Como vim a verificar mais tarde, é uma questão que a maior parte das pessoas não considera problemática, mas tenho uma opinião diferente.

“Não desejo. Mas quero.”

“Como assim?”

“Perguntou se eu desejava um saco. Não creio que possa dizer que eu desejo um saco. Eu quero um saco. Mas desejar parece-me um verbo demasiado forte.”

“Ora essa. Por quê?”

“Julgo que não é possível desejar um saco. A menos que se sofra de uma patologia invulgar. A ideia de desejar um saco tem uma óbvia sugestão libidinosa que é francamente perturbadora. Eu limito-me a querer um saco.”

“Disparate. Desejar e querer são em larga medida sinônimos. Claro que ambos têm várias acepções. Mas mesmo a que assinalou, a da atração física, é comum aos dois. Talvez o verbo querer até seja mais vezes usado nesse contexto específico. Repare que o conhecido soneto de Camões, que começa com o verso ‘Amor é fogo que arde sem se ver’, diz, a certa altura: ‘É um não querer mais que bem querer’. Viu? O poeta opta pelo verbo querer. E não há ocorrências do verbo desejar no poema.”

Atrás de mim formou-se uma fila que começava a impacientar-se. Um senhor que tinha o carrinho de compras cheio resolveu intervir:

“Escutem, não há problema. Eu não sei se este senhor deseja um saco ou se quer um saco. Em qualquer dos casos, o melhor é dar-lhe, que eu tenho congelados no carrinho.”

E chegou o gerente.

“O que se passa?”

Respondi eu:

“Este funcionário perguntou-me se eu desejava um saco. À frente de toda a gente. Estão ali crianças e tudo.”

“E o senhor não deseja um saco?”

“Não. Talvez tenha acontecido uma vez ou duas, durante a adolescência, mas na adolescência tudo é motivo de desejo, como sabe. Até um saco. Eram outros tempos. Agora eu quero um saco.”

“Mas desejar e querer é igual”, disse o caixa.

“Creio que compreendo o problema”, disse o gerente. “Será justo dizer que o senhor precisa de um saco?”

“Julgo que sim.”

O funcionário do caixa interveio de novo:

“Não faz sentido. Sobretudo à luz do tema ‘Como a abelha/ Necessita de uma flor/ Eu preciso de você’, de Roberto Carlos.”

Era bem observado. Por isso vim embora com as compras na mão.


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