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Desfile de Sete de Setembro inibe sonhos de carnavalesco – 01/09/2022 – Voltaire de Souza

CORAÇÃO DE ISOPOR

Ordem. Autoridade. Pátria.

Avançam os preparativos para o Sete de Setembro.

Luizito apoiava a ideia.

–É a chance do Bolsonaro, pô.

No Bar e Sinuca Bola Preta, os amigos discordavam.

–Esse troço de desfile militar é legal, mas…

Luizito cuspiu um caroço de azeitona.

–Podem parar. Já sei o que vocês vão dizer.

O sorriso do rapaz exibia superioridade.

–Vocês acham que aqui no Rio, a gente gosta mesmo é de samba.

–Pois é, Luizito. Ainda mais você… que é carnavalesco… que mania de militar é essa?

O rapaz já tinha idealizado diversos desfiles de escola de samba.

–E agora fica se interessando em tanque e veículo blindado?

Era o momento de revelar alguns segredos.

Luizito tomou um demorado gole de cerveja.

–Estou namorando um oficial da cavalaria.

–Bom. Então…

–Lindo. Educado. Me protege.

Quem, nesta situação de tanto crime e insegurança, não gostaria de proteção militar?

Luizito continuou.

–Sabe do quê? Ele me consultou sobre o desfile.

O guardanapo de papel se preencheu com rápidos traços de canetinha hidrocor.

–O coração do D. Pedro, por exemplo.

–O que é que tem?

–Vamos fazer uma alegoria. Um coração gigante de isopor e fibra de vidro.

–Para pôr no desfile?

–Mas é surpresa, pessoal. Não contem para ninguém.

Outras ideias estavam engatilhadas na fértil mente do carnavalesco.

–Uma ala com sósias do D. Pedro.

Quarenta jovens modelos e seus respectivos cavalos já tinham sido contatados.

–E mulher? Vai ter mulher?

–Ala das cortesãs. Ala das vivandeiras. Ala das empresárias.

Luizito queria reproduzir o célebre quadro da Independência.

–Carros de boi. Apoteose do agronegócio.

O celular interrompeu os sonhos do rapaz.

–Luizito. Sou eu. O Adonias.

–Fala, meu capitãozinho gostoso.

–Nossos planos para o desfile… foram rejeitados pela Comissão de Preparativos Patrióticos.

–Mas, Adonias…

–Pressão dos evangélicos, Luizito.

–Puxa… mas aí vai faltar alegria… sonho… paetê.

O suspiro de Adonias ouviu-se do outro lado da linha.

–Quem falou em paetê, Luizito…?

Adonias foi curto e grosso.

–Tanques, Luizito. Blindados. Veículos táticos.

–Não vão usar nem o coração de isopor?

–O momento, Luizito, é de chumbo grosso e ferro na boneca.

–Bom. Tudo bem então. Eles mandam, você obedece.

–Ah, não enche, Luizito.

A tarde caiu com desânimo no Bar e Sinuca Bola Preta.

O namoro de Luizito e Adonias esfriou bastante.

–Assim… ficou na base da medida provisória. E dos atos de emergência.

Corações se preservam no formol.

Mas, em tempo de canhão, canetinha colorida não tem vez.


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