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Felipe Neto e a repulsa como arma política – 10/06/2022 – Leandro Narloch

Tiago Leifert disse dias atrás que anularia o voto se tivesse que escolher entre Bolsonaro e Lula. Para qualquer um preocupado com mais um governo Bolsonaro e assustado com a corrupção e as propostas econômicas do PT, a posição é compreensível.

Pode-se facilmente discordar do voto nulo e defender um dos candidatos, mas a postura de Leifert está longe de ser absurda ou repugnante.

Felipe Neto, no entanto, tem nojo. O youtuber de 34 anos tem tanta certeza de suas convicções que sente repulsa de quem vota diferente. “Vc vota NULO pq tá alinhado com um discurso de elite…”, disse ele no Twitter, sobre Tiago Leifert. “Vc é um nojo.”

Por que alguém sentiria repugnância de uma pessoa tão longe de ser radical, antipática ou intolerante quanto Leifert, que no fim das contas mal chegou a declarar voto em algum candidato?

Uma explicação que pode servir aqui vem de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff. No livro “Coddling of American Mind”, os dois defendem que a cultura atual de intolerância à divergência é fruto de uma geração que passou tempo demais nas telas e pouco na rua. Coisa de “piá de prédio”, como dizíamos em Curitiba.

Criados por pais superprotetores, esses jovens cresceram frágeis e paranoicos, acreditando ter direito a viver num mundo sem divergências ou potenciais ofensas. E que, se alguém falar alguma coisa que os deixa mal, esse indivíduo é automaticamente um vilão repugnante que deve ser censurado, excluído e denunciado em abaixo-assinados.

Eu costumava aceitar essa explicação até deparar com uma ideia do linguista americano John McWhorter sobre os inquisidores do século 21 (que ele chama de “os Eleitos”).

Professor de Columbia e colunista do New York Times, McWhorter acredita que quem diz estar ofendido, sentir nojo ou ânsia de vômito diante de opiniões não sente isso tudo de verdade. Só faz pose.

“Os Eleitos não se sentem assustados, muito menos fisicamente feridos, por colunas, tweets, listas de leitura, símbolos ou expressões verbais”, diz McWhorter em “Woke Racism”. “Eles posam como feridos para demostrar a ‘violência’ de visões com as quais discordam e assim provar que essas visões são malignas.”

O tom inflamado de Felipe Neto seria, então, um artifício retórico, um modo de exagerar a gravidade do que os outros disseram e tornar evidentes os supostos equívocos.

Tiago Leifert respondeu dias depois chamando o youtuber de “gente inferior”, o que os comentaristas mais maldosos consideraram uma expressão nazifascista.

Bem, se formos evocar o fascismo nessa polêmica, vamos para outro caminho. A essência do fascismo é a repressão à diferença, à dissidência.

Fascistas usavam a repulsa como arma política. Ao considerar opositores repugnantes, criavam uma justificativa para retirar seus direitos políticos. A repressão fica mais tolerável se parecer um exorcismo.

Já o oposto do fascismo é o apreço à divergência, o debate elegante, a generosidade ao tentar entender quem pensa ou vota diferente.

Se tem alguém próximo do fascismo na polêmica desta semana, não é Tiago Leifert.


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