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Guerreiro ou desleal? As muitas faces do fundador da Mancha assassinado – 27/12/2021

Poucas torcidas idolatram tanto seus fundadores quanto a Mancha Verde, a maior organizada palmeirense. Em todo jogo do time em casa, a torcida leva uma bandeira homenageando Cleofas Sóstenes Dantas da Silva, assassinado em 1988. Ele entrou para a história como um “guerreiro”. Mas também há quem o considerasse desleal.

Cleo estava no grupo que fundou a organizada em 83. Foi baleado com dois tiros, ao lado do antigo Parque Antarctica, cinco anos depois. Desde então, vem sendo adorado e virou um nome de dimensão comparável apenas a jogadores históricos do Palmeiras, como Marcos, Evair, Alex e Cleber.

De acordo com os torcedores da Mancha Verde nos anos 80, Cleo era um líder destemido, bom de briga e disposto a quase tudo para defender a organizada. Mas outras pessoas que conheceram Cleo o descrevem como alguém capaz de fazer “maldades” com torcedores rivais.

Cleo e os demais fundadores da Mancha são os personagens reais de “Sobre meninos e porcos”, a terceira temporada do podcast “UOL Esporte Histórias”. Você pode conferir o quinto episódio no player acima e nas principais plataformas de áudio. O episódio 6, último desta temporada, será publicado em 05 de janeiro de 2022.

“Cleo é o maior ícone da torcida do Palmeiras. O cara que mais gostava de fazer festa em arquibancada. Ele era doidão, ficava inventando coisa, até irritava”, conta Paulo Serdan, ex-presidente e fundador da Mancha Verde.

Mosaico da Mancha Verde em homenagem a Moacir Bianchi e Cleo Sóstenes (dir.) na Copa do Brasil 2020 - Ettore Chiereguini/AGIF - Ettore Chiereguini/AGIF

Mosaico da Mancha Verde em homenagem a Moacir Bianchi e Cleo Sóstenes na Copa do Brasil 2020

Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF

Duas das imagens mais conhecidas de Cleo mostram que, além de gostar de brigar, o torcedor valorizava o lado lúdico e festivo da arquibancada. Uma das fotos mostra Cleo, sorridente, com o rosto pintado com as cores do Palmeiras.

A outra, na qual Cleo aparece levantando um porquinho, é uma referência ao dia em que ele, ao lado de outros integrantes de organizadas, levou um porco antes de uma partida no Morumbi para assumi-lo como mascote.

Era o Cleo “estrategista”, uma faceta menos conhecida do ídolo manchista. Serdan diz que o amigo trabalhou para batizar a estação de metrô Barra Funda, perto do estádio alviverde, como “Palmeiras-Barra Funda”, nome que carrega hoje.

De acordo com Serdan, “enquanto ninguém acreditava, o Cleo montou uma barraquinha no Viaduto do Chá para colher assinaturas pedindo isso”.

Serdan, que também foi presidente da torcida, relata outro episódio no qual o “guerreiro” usou seu lado político, e não os punhos, em favor da torcida. “Quem mudou a questão de mando de jogo, da torcida mandante entrar pelo portão principal quando jogávamos no Morumbi e no Pacaembu, foi o Cleo”, diz o ex-presidente da Mancha.

“Foi em uma reunião no Batalhão de Choque. Ele [Cleo] bateu o pé antes de um Palmeiras e Corinthians e disse que íamos entrar pelo portão principal porque éramos mandantes”, lembra Serdan.

Amigos e rivais falam de covardia

Integrantes de torcidas rivais contemporâneos ao palmeirense, entretanto, tem visões diferentes sobre o herói palmeirense. Reconhecem sua dedicação à Mancha Verde e sua disposição para o confronto, dizem que ele passava do limite do aceitável.

“Eles [fundadores da Mancha Verde] falavam abertamente que vieram pra detonar, vieram pra limpar, honrar o nome do palmeirense”, diz José Claudio de Almeida Moraes, o Dentinho, ex-presidente da Gaviões da Fiel. “Eles escolheram o revanchismo, e o Cleo era o líder máximo. Era o cara que estava em todas as coisas que ocorriam. De brigas… de errado, vamos dizer assim.”

Cosmo Damião, fundador da Torcida Jovem do Santos, lembra de uma briga na qual Cleo teria sido desleal: “Tínhamos um deficiente físico integrante da torcida que pegava ônibus no Vale do Anhangabaú. A Mancha Verde chegou com seis ônibus, acharam que a bengala dele era um pedaço de ferro e agrediram ele. Foi quando fiquei sabendo quem era o Cleo”, diz Cosmo.

Ex-integrante da Mancha e fundador da organizada Acadêmicos da Savóia, José Luis Muoio era muito amigo de Cleo. Mas mesmo ele admite que o palmeirense era extremamente agressivo em algumas ocasiões.

“Eu via situações em que ele era maldoso. E, pra ele, a maldade não tinha idade”, diz Zé Luis. “Teve uma vez, voltando do Pacaembu, em que ele estava na porta do ônibus, a gente foi fazer uma curva pra pegar a avenida Sumaré. Tinha um bar e um senhorzinho de idade estava com a camisa da Kalunga [então patrocinadora do Corinthians] bebendo. O ônibus parou, ele veio e deu um pontapé nas costas do velhinho. O velhinho arregaçou a cara no balcão que vende salgados. Com copo e tudo, arregaçou, só via sangue. Essa cena, eu lembro até hoje, veio um silêncio no ônibus. O Cleo falou assim: ´Se tiver dó, vai lá e pega. Não tem que ter dó dessa raça.'”

Serdan refuta a ideia de deslealdade. “O Cleo era um cara caçado. Cansamos de estar na porta da sede [da Mancha] depois de um Palmeiras e Corinthians e neguinho descer armado do carro, encher o saco, falar um monte de besteira. Cara com camisa da Gaviões. Eles iam se apegando a essas histórias de deslealdade para usar como pretexto para alguma coisa.”

Sobre meninos e porcos

“Sobre meninos e porcos” é a terceira temporada do premiado podcast “UOL Esporte Histórias”, que conta a história de como as torcidas organizadas saíram da festa e chegaram à violência. O relato é centrado no assassinato de Cleo Sóstenes Dantas nos anos 1980, considerado o marco da chegada das armas de fogo às brigas de torcida. Você pode conhecer essa história, que os repórteres Adriano Wilkson e Daniel Lisboa investigam há um ano, em um podcast de seis episódios.

1: Respeito é pra quem tem

2: E ninguém vai me segurar

3: Sangue derramado

4. Calibre 38

5. Chumbo de caça (disponível no player acima)

6. Se eu morrer, não chorem por mim (disponível em 05 de janeiro de 2022).

Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts e em todas as plataformas de distribuição. Você pode ouvir “UOL Esporte Histórias”, por exemplo, no Spotify, na Apple Podcasts e no Youtube.



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