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Hamilton, a imprensa da F1 e o dia em que vendemos a Sauber pro Schumacher – 25/12/2021

Tão assíduo nas redes sociais, Hamilton não posta nada desde o sábado de Abu Dhabi. Não foi à festa de premiação da FIA, deixando dirigentes irritados, e fez apenas duas aparições públicas desde o último GP do ano: para ser nomeado “Cavaleiro da Rainha” pelo príncipe Charles e para agradecer companheiros de time no evento de fim de temporada da Mercedes.

Prato cheio para os tabloides ingleses e para a imprensa especializada em F1, que não têm muito assunto nestas últimas semanas do ano: começaram os rumores de que o inglês vai se aposentar, sem absolutamente nenhuma informação além dessa soma de circunstâncias.

O prato transbordou quando Ecclestone entrou na história. “Eu não acho que ele vai voltar. Acho que ele não vai correr no ano que vem”, disse o inglês ao jornal “Blick”, da Suíça. Convenientemente, a imprensa focou mais no “não vai correr” do que no “acho”. Era a validação da tese.

Isso me lembra a história de quando Flavio Gomes e eu “vendemos” a Sauber pro Schumacher. É bem ilustrativa sobre os bastidores da imprensa da F1.

Foi em 2001. O GP da Malásia era a segunda etapa da temporada e, como agora, não havia muito assunto para explorar. Na abertura da temporada, na Austrália, Schumacher logo de cara emplacou um hat trick. Todos sabíamos que o alemão e a Ferrari nadariam de braçada.

Flavio e eu estávamos na estrada entre Kuala Lumpur e Sepang debatendo exatamente isso. O que escrever?

Aqueles GPs do outro lado do mundo traziam um desafio extra para nós: o fuso horário. O jornal de domingo, por exemplo, saia sem o grid de largada.

Mais do que em outras corridas, precisávamos de boas histórias para preencher o espaço com alguma dignidade, não dava para se apoiar no que jornalistas chamamos de “factual”.

O que escrever?

Eu comentei que o alemão havia feito rasgados elogios à Sauber na semana anterior. Flavio lembrou que Schumacher tinha uma relação estreita com o dono da equipe, já que pilotara para a Sauber no Mundial de Marcas, antes da F1.

Outras coincidências começaram a pulular. “Schumacher mora na Suíça!” “Schumacher está milionário!” “Schumacher já tem 32 anos!” “Schumacher já falou que não vai correr por muito tempo!” “A Sauber usa motores Ferrari!” “A Sauber está mal das pernas!”

Estava claro, as circunstâncias gritavam: “Schumacher vai comprar a Sauber!”

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Peter Sauber, Michael Schumacher, Karl Wendliger e Heinz-Harald Frentzen nos tempos do Mundial de Marcas

Imagem: Reprodução

Teria sido apenas uma boa diversão, um bom papo de estrada, não tivesse virado “notícia” internacional. E aconteceu assim…

Chegando ao autódromo, partimos para nossas apurações normais, cada um para um lado, cada um com suas ideias. Entre as obrigações do dia, estava uma entrevista coletiva na Ferrari, algo de praxe. Mas o Flavio, um pândego, resolveu conturbar. Irrompeu a sala, ainda sem representantes da equipe, bradando: “Schumacher vai comprar a Sauber!”

Jornalistas do mundo todo, tão desesperados por informações como nós, olharam pra gente como um misto de estranhamento, de choque e de esperança. Como assim?

Então começamos a elencar as coincidências: elogiou a Sauber, já falou em parar, Mundial de Marcas, Suíça, Ferrari, blábláblá…

Instantes depois os representantes da Ferrari chegaram, a entrevista coletiva aconteceu _não tenho a menor lembrança do assunto_ e seguimos tocando nossas vidas.

Já era fim de tarde na sala de imprensa quando um amigo italiano chegou em nós e perguntou: “Escuta, o que mais vocês sabem dessa história do Schumacher com a Sauber?”

Gargalhamos. “Nada! Obviamente era uma brincadeira. Não escrevemos uma linha sobre isso”, dissemos.

“Cazzo, já mandei duas páginas para meu jornal com essa história!”, retrucou o colega.

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Sauber e Schumacher, quando o alemão corria na Mercedes

Imagem: Reprodução

Não foi só ele. Muitos jornalistas ao redor do mundo escreveram sobre o tema. Que ganhou contornos ainda mais espetaculares no dia seguinte. Alguém abordou Willy Webber, empresário de Schumacher, no paddock de Sepang e perguntou sobre o assunto. Provavelmente rindo por dentro, ele disse que era algo a se pensar.

Pronto! Mais um dia estava salvo. Jornais do dia seguinte estamparam: “Empresário de Schumacher confirma interesse na Sauber”.

Ecclestone, nesta semana, fez o papel de Webber 20 anos atrás. Recebeu o telefonema do jornalista do “Blick”, seu amigo Roger Benoit, e resolveu entrar na onda.

Schumacher correu na F1 até 2006, retornou em 2010 para mais três temporadas e nunca comprou a Sauber.

Hamilton tem mais dois anos de contrato com a Mercedes, é alguém movido a desafios e que já disse ter muita curiosidade em pilotar os novos carros da F1. Mais, a própria Mercedes já deu sinais claros de que ele vai ficar.

Mas isso não preenche espaço. É mais conveniente especular, inventar listas de substitutos, publicar opiniões alheias como verdades absolutas.

Os testes pré-temporada só começam em fevereiro e o primeiro GP de 2022 só acontece em março. Até lá, fiquem atentos às “notícias” que circularão por aí.

Lembrem-se sempre da história de Schumacher comprando a Sauber.

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