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Jornalismo militante – 02/09/2022 – Demétrio Magnoli

A imprensa militante, uma ferramenta de partidos e movimentos sociais, propaga causas políticas e ideológicas. A imprensa profissional rejeita a pregação: analisa o noticiário segundo ângulos e pontos de vista diversos, refletindo a pluralidade política da sociedade. O especial sobre as cotas raciais nas universidades publicado pela Folha (29/8) ilustra a colonização da segunda pela primeira.

São seis textos de propaganda das cotas raciais. Acompanha-os uma entrevista com um crítico das cotas raciais que funciona como disfarce: o álibi para inscrever a peça de imprensa militante num veículo da imprensa profissional.

O primeiro texto noticia o diagnóstico governamental de que os cotistas obtiveram desempenho acadêmico similar aos demais —mas nenhum crítico sério das políticas raciais acalentou a ideia racista de que ocorreria coisa diferente.

O segundo defende a tese de que, ao longo do tempo, os beneficiários das cotas passaram a enxergá-las como um direito. Trata-se do óbvio: o que está na lei é um direito. O terceiro esforça-se para provar o impossível, exibindo os tribunais raciais criados pelas universidades como comissões capacitadas a distinguir cientificamente os pardos que são “negros” dos que são “brancos”.

O quarto descreve trajetórias de sucesso de cotistas, investindo na função emotiva da publicidade. O quinto ilude o leitor: seu título afirma que o Brasil serve de exemplo para países empenhados em “incrementar” sistemas de cotas, mas só consegue apresentar uma nação (a Índia) que adota cotas raciais (no caso, de castas). O sexto expõe a conclusão desejada: uma ativista da causa explica que “negros ainda precisarão de cotas raciais por muito tempo”.

O “outro lado” resume-se a uma entrevista hostil: um interrogatório confrontacional no qual o jornalista embute nas “perguntas” as teses dos arautos das cotas de raça. Num toque de supremo oportunismo, o entrevistador sugere que o entrevistado alinha-se com o bolsonarismo, obrigando-o a esclarecer que é um “crítico ao governo”.

Os seis jornalistas que assinam os textos militantes fazem parte do grupo Jocevir (Jornalistas pela Censura Virtuosa). Todos, sem exceção, assinaram o manifesto solicitando o veto a artigos de opinião de críticos das políticas raciais. Na opinião deles, o “outro lado” —esse personagem definido como indispensável pelo Manual da Folha— precisa ser extirpado.

Os argumentos contrários às cotas raciais foram ignorados no caderno especial. O tapume das preferências de raça no acesso à universidade oculta a paisagem de ruínas do ensino público. Atrás da falsa “inclusão”, oculta-se a exclusão implacável da maioria dos jovens, pretos, pardos ou brancos.

Mas nenhum dos textos experimentou cotejar nossos indicadores educacionais com os padrões internacionais ao longo de 20 anos de vigência das cotas raciais. Note-se: a lei federal é de 2012, mas os programas de cotas começaram em 2003.

Originalmente, os arautos das cotas as justificaram como iniciativa para reduzir o racismo. A se dar crédito aos textos que assinam atualmente, a política de cotas fracassou. Hoje, na avaliação deles, um “racismo estrutural” triunfante contamina todas as esferas da vida nacional, na política, na economia, na mídia e nas relações interpessoais. Daí, extraem a conclusão paradoxal de que é necessário dobrar o remédio contraproducente, estendendo a vigência da lei de cotas por várias décadas.

No ponto de partida, os ativistas racialistas propuseram uma lei temporária, válida por dez anos. Mas políticas de raça sempre tendem a se perenizar, como os críticos alertaram —e como atesta a experiência da Índia. O jornalismo militante produzido na Folha faz parte da campanha política destinada a renovar a lei de cotas por 50 anos, eternizando uma fronteira legal entre “brancos” e “negros”.


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