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‘Liberdade de expressão’ é alegada para publicar mentiras só contra negros – 11/02/2022 – Marilene Felinto

Dizer que existe “racismo reverso” (de negros contra brancos) no Brasil é uma mentira —antes o nome que se dava a isso era “mentira”. A publicação de uma mentira como essa seria, até há pouco tempo, manipulação da informação ou “desinformação” (construção e difusão “de uma inverdade proposital”).

Mais recentemente, nesta era das chamadas “fake news” (“versão avançada e tecnológica da desinformação”), nesta era de vale-tudo de opiniões na esfera pública, em nome de um “pluralismo” deformado, estudiosos de mídia e comunicação política mundo afora passaram a empregar a expressão “pós-verdade” a esse processo.

“Enquanto uma mentira subverte uma verdade específica, a pós-verdade tenta subverter a própria verdade”, explica-se. E a discussão não se reduz a uma questão conceitual ou de nomenclatura. Nem se trata aqui, neste artigo, de enveredar pelo antiquíssimo debate filosófico sobre o que é a verdade.

Uma publicação recente —”Democracy and Fake News: Information Manipulation and Post-truth Politics” (edição em inglês da editora Routledge, de 2020)—, organizada pelas pesquisadoras Serena Giusti e Elisa Piras, apresenta diversos artigos que analisam em profundidade a relação contemporânea em que realidade, falsidade e poder interagem no universo da mídia e das redes sociais.

Dizer (e publicar) que existe no Brasil “racismo reverso” (de negros contra brancos) não é apenas operar uma mentira, é produzir uma grave distorção da realidade, é afirmação que não corresponde aos fatos —e é bastante reveladora de que a verdade não é mais essencial. Pretende-se é legitimar a supremacia social, a exploração e a dominação de um grupo social e político (os brancos) sobre um grupo marginalizado (os negros).

Em seu artigo “Desigualdade na esfera pública: injustiça epistêmica, discriminação e violência”, Elisa Piras analisa os efeitos negativos e de perpetuação das desigualdades sobre grupos marginalizados, resultantes da disseminação de narrativas pós-verdade contemporâneas.

“As desigualdades sociais e políticas afetam a estrutura e o funcionamento da esfera pública – a arena onde a opinião pública emerge, como resultado da troca contínua de informações e opiniões”, afirma a pesquisadora.

A desigualdade, continua ela, produz danos e injustiças para os membros dos grupos marginalizados, eles que não têm vez nem voz, eles que experimentam “déficits de credibilidade” ou dificuldades quase intransponíveis para acessar a esfera pública como membros livres e iguais.

O ponto é este: no Brasil, os negros (a maioria da população) não são livres nem iguais, continuam vítimas do racismo e da assimetria estrutural de poder, de uma estrutura social na qual a identidade de um grupo privilegiado (o dos brancos) basta para lhes conferir vantagem e credibilidade.

Assim é que grupelhos de cabotinos medíocres, apadrinhados por seus cúmplices com poder na mídia, e somente por serem brancos, têm espaço garantido para a publicação de narrativas fecais, mentirosas, cheias de discriminação e violência contra negros. E somente contra negros.

Não se publica coisa do tipo sobre grupos brancos com histórico de discriminação semelhante, mas que detêm poder econômico e social, como os judeus, por exemplo. Não se diz (nem se publicaria) que há “nazismo” de judeus contra palestinos. Não se publica uma mentira como essa, nem texto que minimize o Holocausto (grafado em letra maiúscula, aliás, em certos manuais de imprensa, contra a minúscula de “escravidão”).

Alega-se “liberdade de expressão” quando se trata de publicar textos mentirosos contra negros, ideias cujo interesse é manter a distribuição desigual de poder na sociedade, é reproduzir e fortalecer a condição de marginalização, os estereótipos de identidade negativa e os déficits de credibilidade dos negros.

Cadê a “liberdade de expressão” quando se trata de negar a publicação de textos antissemitas ou de ideias que neguem comprovações científicas como as dos antivacina? Cadê o “pluralismo”?

Idealmente, uma esfera pública democrática é caracterizada por um pluralismo razoável, diz Elisa Piras. Porém, continua, quando se passa do ideal de esfera pública para as condições não ideais de uma democracia (como a do Brasil), o pluralismo pode servir de gatilho para ações de violência praticadas por indivíduos ou grupos organizados.

Para uma imprensa que é branca, a verdade não é essencial quando se trata de racismo contra negros. Chame-se de prática da pós-verdade, ou de mentira, o escárnio é o mesmo. Como já dizia Malcolm X, na longínqua década de 1960, “[…] a imprensa é branca. E quando digo que a imprensa é branca, quero dizer que é branca. E é perigosa”.


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