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Linguagem neutra serve como distinção de classe social – 05/08/2022 – Leandro Narloch

O Ministério de Obras Públicas da Argentina anunciou nesta semana o uso da linguagem neutra em documentos oficiais. A medida serviria para tornar a língua mais inclusiva para pessoas que não se identificariam com as marcações de gênero do vocabulário tradicional.

Permita-me desenvolver a ideia oposta: a linguagem neutra não é inclusiva. Serve para excluir. O objetivo declarado pode ser a inclusão, mas sua função real, talvez inconsciente para a maior parte dos adeptos, é ser um símbolo de status, uma crença de luxo, uma demarcação de classe.

Não tem como tratar desse assunto sem falar sobre a vida de Rob Henderson, hoje doutorando em psicologia pela Universidade de Cambridge. Filho de uma mãe viciada em drogas e de um pai desconhecido, Henderson rodou a infância em diversas famílias adotivas e abrigos da Califórnia. Uma de suas primeiras lembranças é da mãe sendo levada algemada por policiais; com o tempo, o garoto se acostumou a reunir seus pertences em sacolas plásticas e partir para conhecer uma nova família.

Contra todas as expectativas, aos 17 anos Henderson ingressou na Força Aérea Americana. Anos depois, com apoio da Fundação Bill e Melinda Gates, tornou-se estudante de psicologia em Yale.

O ingresso numa das melhores universidades dos EUA fez Henderson ter contato com jovens ricos e privilegiados, gente até então desconhecida para ele. Sua surpresa é que os estudantes endinheirados de Yale não ostentavam bolsas ou carros de luxo. Seus símbolos de status eram ideias. E palavras.

“Quando eu vivia em lares adotivos, ganhava salário mínimo como lavador de pratos ou servia nas Forças Armadas, nunca ouvia palavras como ‘apropriação cultural’, ‘estereótipo de gênero’ ou ‘heteronormativo’. Mas se você visitar Harvard, encontrará muitos jovens ricos de 19 anos que ansiosamente explicarão esses termos para você.”

Para Henderson, à medida que roupas da moda e outros produtos se tornam mais acessíveis, os bens de luxo deixam de sinalizar status. “As classes altas encontraram uma solução inteligente para esse problema: crenças de luxo. São ideias e opiniões que conferem status aos ricos a um custo muito baixo, enquanto causam danos aos mais pobres”, escreveu ele em 2019, num artigo no New York Post.

A linguagem neutra é um exemplo cristalino de crença de luxo. Quando a marca de sucos diz na embalagem “mais pêssego para todes”, não está nem de longe querendo incluir transexuais, mas sinalizar algo como “sou moderna, moralmente sofisticada, pertenço à vanguarda urbana escolarizada, ao contrário dos meus concorrentes”.

Se no século 19 a elite ostentava riqueza com atividades de lazer e esportes caros e incomuns, como defendeu o sociólogo Thorstein Veblen no livro “A Teoria da Classe Ociosa”, hoje a ostentação ocorre por meio de opiniões esquisitas. “Quando as pessoas expressam crenças incomuns, diferentes do pensamento convencional, como defender o ‘defund the police’ [desfinanciamento da polícia] ou usar um vocabulário peculiar, muitas vezes o que realmente dizem é: ‘Fui educado em uma universidade de ponta’ ou ‘eu tenho tempo e recursos para adquirir essas ideias esotéricas’”, diz Henderson.

Como muita gente já comentou, é bastante duvidosa a ideia de que a linguagem neutra renda algum benefício para transexuais. Muitos deles não ligam a mínima para o assunto, acham coisa de adolescentes, preferem ser chamados pelo novo gênero que adotaram. Ocorre que a verdadeira função da linguagem neutra não é incluir: é distanciar seus defensores o máximo possível dos modos do povão.


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