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Livro de sobrevivente de atentado ao Charlie Hebdo responde a fanatismo – 02/08/2022 – Karla Monteiro

“A ideia do ferimento ainda não fizera o seu caminho até mim. Eu estava no chão, de barriga para baixo, os olhos ainda fechados, quando ouvi o barulho dos tiros se separar totalmente da farsa, da infância, do desenho e se aproximar do poço ou do sonho em que eu me encontrava. O sujeito que caminhava até o fundo da sala e na minha direção atirava uma vez e dizia: ‘Alá akbar!’. Atirava outra vez e de novo repetia: ‘Alá akbar!’.”

“Aqui é Bolsonaro”, eu parecia escutar o assassino do petista Marcelo Arruda, enquanto devorava “O Retalho”, lançado no Brasil pela Todavia. Um relato fraturado, com detalhes reveladores, do massacre ocorrido na redação do satírico jornal francês Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015. Contrastando com a brutalidade do ataque, que deixou 12 mortos e 11 feridos, a prosa erudita de Philippe Lançon cai como uma resposta literária ao fanatismo.

À violência dos vingadores, ele oferece delicadeza, ironias, paradoxos, conexões afetivas, reflexões, humor —humor francês, diga-se. Enquanto lá fora, no mundo dos vivos, gritavam “Je Suis Charlie”, é um homem lutando para entender o seu próprio mundo irremediavelmente transformado. As prodigiosas abstrações e os passeios interiores descascam as consequências do radicalismo que o encerrou em hospitais por 282 dias e 17 cirurgias.

Naquela manhã, quando entrou pela última vez no decadente prédio da Nicolas-Appert, Paris, segundo Lançon, não era Charlie. Havia sido, até o momento das caricaturas de Maomé, em 2006. Agora o jornal sobrevivia de alguns poucos fiéis leitores. A empinada esquerda francesa o abandonara a própria sorte. Os radicais, afinal, não deviam ser atiçados. Na opinião de Lançon, a julgar pelo estado dos jornais menos disciplinados, a França era uma “democracia em péssimas condições”.

A reunião começou no horário de sempre, por volta das 10h30. Ao sair de casa, pedalando a velha bicicleta que herdara do pai, Lançon ainda não sabia se passaria primeiro na redação do Libération, para escrever a crítica cultural da semana, ou se ia direito para a redação do Charlie Hebdo. No caminho, parara para comprar um iogurte e tomara a decisão que o colocava ali, na Nicolas-Appert, “entre a praça da Bastille e a da République, entre a Revolução e a Comuna”. Chegou alguns minutos atrasado.

A busca dos instantes que costuram a trágica manhã é uma obsessão do autor. Cada minúcia lhe importa. Eram 11h15, talvez 11h28, quando se levantou, vestiu o casaco, e se preparou para seguir, enfim, para o Libération. “Se Cabu não tivesse feito seu desenho, eu não teria parado para lhe mostrar o livro de jazz que me fizera lembrar dele. Se não tivesse parado para mostrar o livro, eu teria saído dois minutos antes e teria me deparado, na escadaria, refiz este cálculo cem vezes, com os dois assassinos.”

“Quando a morte não é esperada, quanto tempo se leva para sentir a sua chegada?” Deitado de bruços, com a cabeça virada para a esquerda, Lançon tinha à frente dos olhos os miolos de Bernard Maris saltando para fora do crânio. Também via as calças pretas, circulando pela sala: “Alá-akbar!”. “Alá-akbar!” Os mortos se davam as mãos. O pé do primeiro tocava a barriga do segundo, cujos dedos tocavam o rosto do terceiro, que pendia para o quadril do quarto.

“Houve mais tiros, alguns segundos se passaram, outros ‘Alá-akbar!’. Tudo era ao mesmo tempo nebuloso, nítido e desarticulado.”

Assim que o silêncio desabou sobre a sala e Lançon sentiu que o assassino —ou assassinos, não tinha certeza— saiu pela porta ele se pôs de lado, depois ergueu o tronco e se encostou na parede. Não sabia que um terço da sua face havia sido dilacerado e os dois braços rasgados a bala. Quase embaixo da mesa, repousava o corpo praticamente decapitado de Maris e, logo ao seu lado, de costas, o de Tignous. Os dedos deste seguravam uma caneta, na posição vertical, indicando o estupor que precedeu a execução.

Da primeira a última página, quase 500 ao todo, “O Retalho” surpreende. Com o mundo reduzido a uma cama de hospital, Lançon ouve os ecos do que se passa lá fora: as passeatas, a caçada aos criminosos, a condenação do terror, a absolvição do Charlie Hebdo. Mas não está interessado em nada disto. Sua mandíbula não para de vazar. A sonda pela qual se alimenta causa-lhe coceiras no nariz. Tem um tubo na garganta. Mal consegue respirar. Não pode falar. E só conta com três dedos intactos para escrever bilhetes e versos.

Sobretudo a obra é um belo exercício da liberdade de contar uma história, seguindo o fluxo da memória. O ir e vir que resulta num livro profundamente civilizatório. “O Retalho” passa léguas do que se poderia esperar dele: um libelo em favor da liberdade de expressão. Em raros momentos, Lançon destila sarcasmo ideológico. Sua birra é com os “gurus culturais”. A falta de solidariedade destes teria contribuído para isolar o Charlie Hebdo e transformá-lo em alvo dos radicais islamitas.

“Um jornalzinho que tinha uma grande história, e seu humor, felizmente, fizera mal a um número incalculável de imbecis, fanáticos, burgueses, celebridades, pessoas que se levavam a sério”, escreveu. “Os assassinos lhe conferiram, subitamente, um estatuto simbólico e internacional que nós, seus produtores, preferiríamos dispensar.”

Lançon est Charlie!


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