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Maluco que atacou ‘Mona Lisa’ tinha uma ideia na cabeça – 31/05/2022 – Marcelo Coelho

Pobre “Mona Lisa”! Era para ser só um quadro, mas virou uma espécie de mito. Acaba com isso atendendo a infinitas funções —entre elas a de ser dessacralizada, vandalizada, “desmitificada”.

Quem vai ao Louvre para vê-la de perto costuma se decepcionar: uma pintura pequena, cercada de centenas de cabeças que, todas, se perguntam o que vieram fazer ali.

Talvez a resposta esteja com o maluco que jogou uma torta nela, no domingo passado. É como se, mais uma vez, ele estivesse dizendo: “Parem de cultuar esse quadro! O que é que ele tem de mais?”.

Pior que isso, ele pode ter pensado: “Se é para ficar horas numa fila, só para ver uma pintura sem saber por quê, o melhor seria chegar aqui com um propósito definido; uma ideia na cabeça e uma torta na mão”. O alegado motivo do ataque não convence. Nada do que o sujeito fez contribui para alertar o mundo sobre o aquecimento global.

A “Mona Lisa” é um ímã de significados: absorve qualquer outra mensagem, e o vândalo conseguiu, no máximo, chamar a atenção para si mesmo, para seu gesto.

Seria até melhor jogar a torta e pronto, sem pretexto nenhum. O ato faria parte de uma longa tradição.

Antes do bigodinho que Duchamp acrescentou ao quadro, em 1919, Eugène Bataille (1853-1891) desenhou a “Mona Lisa” fumando cachimbo. Houve também um roubo sensacional, com o desaparecimento do quadro por dois anos, e atentados com ácido, spray, xícara de chá e pedrada. Nem falo das “apropriações” e paródias, que vão de Andy Warhol a Mauricio de Sousa.

Por que a “Mona Lisa”?

Claro que é um quadro muito bonito. Mas há inúmeros outros. Talvez o que o torne mais raro, não sei se único, é o fato de que sua grande qualidade não está acompanhada de muito contexto, de muita explicação.

As velhas obras-primas costumavam contar uma história qualquer. “As Meninas”, de Velázquez, mostra o pintor pintando o retrato dos reis da Espanha. “O Nascimento de Vênus” imagina como a deusa surgiu das águas do mar.

Deposições da cruz, santos martirizados, batalhas vencidas ou perdidas, suicídios de amor, festas camponesas, mulheres raptadas, tudo isso fazia com que cada quadro tivesse alguma “referência” literária, mitológica ou religiosa.

A “Mona Lisa” está meio que solta no espaço, à frente de uma paisagem que não foi enquadrada por nenhuma janela, que não pressupõe nenhuma sacada. Precisamente, ela aparece “sem contexto”. Nem mesmo existe o tradicional fundo pretíssimo que, por convenção, estabelece que estamos diante do retrato de uma pessoa real.

Seria, talvez, a imagem de uma santa —mas não é santa nenhuma, não tem auréola, e seu famoso sorriso, assim como o olhar que nos encara, são desafiadores e irônicos demais para sugerir algum sentimento religioso.

Aí é que as coisas se complicam do ponto de vista cultural. Parecendo uma santa ou a Virgem Maria, mas claramente sem ser isso, a “Mona Lisa” justamente inspira uma espécie de culto religioso, mas afasta ao mesmo tempo qualquer significado teológico.

Surgem duas reações possíveis. A primeira, mais comum, é criar um culto em torno da pintura em si —o culto de um quadro que não remete a nada que possa ser cultuado; a religião de uma santa sem igreja nem altar.

Os olhos piscam, a boca se abre, e dizemos: “Ah… a ‘Mona Lisa’!”. Parafraseando Marx, é a religião de um mundo sem religião. Uma pintura “laica”, sem Bíblia nem legenda, mas que ainda usa a linguagem da pintura religiosa.

Outra reação, naturalmente, é a do vandalismo, da iconoclastia. “Como assim? Que história é essa de cultuar uma santa falsa? A ‘Mona Lisa’ precisa ser desbancada —meus ataques são prova de que ela não faz milagres, e posso fazer com ela o que não faria diante de uma Virgem de Bellini ou Rafael.”

Oscar Wilde, em outro contexto, falava de “esfinges sem segredo”. É impossível responder ao desafio da “Mona Lisa”, porque ela parece pedir resposta a uma pergunta que nunca fez. Em desespero, o vândalo tenta destruí-la para obter alguma paz de espírito.

No século 16, os protestantes condenavam a tralha de imagens e estatuetas do catolicismo; a Igreja Católica era comparada à “grande prostituta da Babilônia”.

Quem sabe a “Mona Lisa” seja a santa do mundo laico, a “grande prostituta do humanismo renascentista”. Num misto de adoração e sacrilégio, usam-na de todo modo, comercializam-na, atacam-na, discutem-na.

Mas ela continua sorrindo.


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