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Novo ‘Batman’ troca a fantasia dos super-heróis pela caçada a um assassino – 28/02/2022

“Batman” não é um filme de super-heróis – ao menos não como eles são percebidos hoje. Não há a construção de universo compartilhado, muito menos a exploração de realidades paralelas. Não existe o menor traço de outras figuras fantasiadas. Nem adianta procurar por easter eggs, uma praga que faz de filmes assim uma versão na tela grande de “Onde Está Wally?”

O diretor Matt Reeves parece contente em se preocupar com uma única cidade. Bastam a ele os limites de Gotham City para construir sua trama de mistério em becos escuros e ruas imundas, emoldurando a metrópole com um horizonte castigado por uma chuva incessante, sua população à mercê de um sistema falido que incentiva a corrupção e a criminalidade.

Não há, portanto, super-heróis em “Batman”. Pelo contrário. Ao construir sua sinfonia de crime e terror, o diretor de “Cloverfield” e dos dois últimos “Planeta dos Macacos” percebeu que a única forma de se destacar no atual cenário da cultura pop, em que só ano passado a concorrência despejou no mercado nove produtos entre filmes e séries, seria isolando-se em uma trama fechada, sóbria, comprometida unicamente em ser cinema.

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Selina Kyle (Zoë Kravitz) desafia o Batman nos telhados de Gotham

Imagem: Warner

Claro, o Cavaleiro das Trevas continua usando medo e seus punhos para encontrar alguma ordem em meio ao caos que abraça sua cidade. Ele ainda é o Batman. Nas mãos de Matt Reeves, porém, ele é também um animal completamente diferente do que vimos antes, alguém que não opera seguindo um senso moral elevado ou alguma noção romântica de justiça: aqui, o nome do jogo é vingança.

É preciso entender, antes de mais nada, que não existe um modo certo de traduzir o Batman dos quadrinhos para o cinema. Insistir sem contexto na fórmula “sombria e realista” é tolice. O personagem criado há mais de oito décadas por Bob Kane e Bill Finger é um caso raro em que seus arquétipos podem ser encaixados em qualquer visão artística. Não importa a época, não importa o formato.

Os quadrinhos podem ser o ponto de partida, mas a massificação veio quando o Batman ganhou carne e osso. O registro era cômico na serie de TV dos anos 1960, flertou com a fantasia nas mãos de Tim Burton e Joel Schumacher e simulou realismo com a trilogia assinada por Christopher Nolan. Todos são o Batman – todos, até a versão revoltadinha defendida por Ben Affleck nos dois desastres assinados por Zack Snyder.

Essa reinvenção do Batman, porém, obedece a uma constante. As circunstâncias que cercam a morte de seus pais, evento catalisador de sua determinação em lutar contra o crime, mudam de acordo com a história sendo contada. Foi o Coringa quem disparou as balas no “Batman” de Tim Burton, e eles eram mortos em um plano para desestabilizar Gotham em “Batman Begins”. O ato, porém, permanece o mesmo.

O novo “Batman”, seguindo essa tradição, reinterpreta personagens, origens e eventos. Não existe nenhuma preocupação com fidelidade aos quadrinhos, e sim à trama do filme. O gatilho, porém, segue imutável: traumatizado pelo crime que testemunhou ainda criança, Bruce Wayne torna-se um vigilante. Reeves não perde tempo, porém, recriando mais uma vez a trágica morte de Thomas e Martha Wayne. Ponto para ele.

A escolha é entrar em jogo com a bola rolando. Na trama escrita por Reeves em parceria com Peter Craig, o Batman (Robert Pattinson) age em Gotham City há dois anos, com o auxílio de seu tutor, Alfred (Andy Serkis). A sugestão de sua presença é o bastante para que os criminosos hesitem antes de agir. O Batman, porém, não é uma figura misteriosa, já que eventualmente trabalha com a polícia de Gotham – mais especificamente com o capitão James Gordon (Jeffrey Wright), mesmo sob protesto de alguns de seus homens.

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O Charada (Paul Dano) embala uma de suas vítimas

Imagem: Warner

O vigilante, porém, torna-se parte da investigação de uma série de mortes quando o assassino deixa ao lado de suas vítimas enigmas endereçados ao Homem-Morcego. Não existe nesta versão do Charada, porém, a histeria espalhafatosa de Jim Carrey, como visto em “Batman Eternamente”. Interpretado aqui por Paul Dano, aqui ele é um matador metódico de imensa crueldade e sadismo, cada vítima é um pedaço de um plano ainda mais grandioso, envolvendo a própria vocação de Gotham para extrair o pior de seus habitantes.

A trama aqui encontra um certo paralelo com a de “Coringa”, que em 2019 reinventou o Palhaço do Crime como um psicopata, sim, mas também uma vítima da decadência acelerada da sociedade e da degradação de seu tecido social e econômico.

Em “Batman”, as vítimas são cidadãos influentes em Gotham, e aos poucos percebe-se que o objetivo não é obter dinheiro ou poder, e sim romper a corda moral que sustenta uma cidade apodrecida. Um emaranhado de corrupção que, invariavelmente, vai refletir em sua família mais trágica e tradicional.

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Batman e seu possante em uma versão menos espalhafatosa

Imagem: Warner

Ao envolver-se no jogo disposto pelo Charada, o Batman acaba atraindo para o tabuleiro outras figuras do subterrâneo criminoso de Gotham. Como Selina Kyle (Zoë Kravitz), ladra que tem mais em jogo do que a princípio aparenta. Ou o Pinguim (Colin Farrell, absolutamente brilhante), o grotesco gângster que finge uma fachada de legitimidade, mas que age nos bastidores para o maior criminoso da cidade, Carmine Falcone (John Turturro). Cada um deles é um pedaço valioso do quebra-cabeças armado em “Batman”.

Com esse ponto de partida, Matt Reeves deixa claro que seu objetivo ao assumir uma aventura do Cavaleiro das Trevas tem menos a ver com a forma como ele pode contar essa história e mais com seu conteúdo. Não há aqui engenhocas mirabolantes (o batmóvel é um muscle car tunado), não há a profusão de trajes de combate diferentes. Manter os pés longe da fantasia é importante para o tom da nova trama.

“Batman” é uma história sobre degradação moral, sobre culpa, sobre uma nova geração pagando por erros do passado. Sobre um vigilante ainda incerto de seus métodos e buscando entender seu papel em uma cidade que aos poucos se esfarela. Tudo isso construído em uma trama de serial killer que poderia sair das mãos de David Fincher (os paralelos com “Zodíaco” não são poucos), executado com a crueza do cinema policial americano dos anos 1970.

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Colin Ferrell, irreconhecível como o Pinguim

Imagem: Warner

As histórias em quadrinhos são a base óbvia do filme, mas sua narrativa deve mais a obras como “Klute – Seu Passado Condena”, “Operação França” e “Todos os Homens do Presidente”. Sem vilões óbvios em roupas extravagantes. Sem maquinações de consequências globais. Apenas pessoas danificadas habitando uma imensa área cinzenta, tentando fazer algum sentido do caos que as cerca.

Existe, claro, arestas a aparar na visão de Matt Reeves para o herói. “Batman” é um triunfo no gênero policial adotado pelo diretor. Como adaptação de um ícone da cultura pop, porém, lhe falta uma certa sofisticação. Falta aquela cena emblemática que cola na retina. Não existe o senso estético que flerta com a fantasia dos filmes de Tim Burton. Não existe o espetáculo visceral criado por Christopher Nolan.

Por outro lado, “Batman” transforma esse distanciamento da fórmula trivial da cultura pop moderna em trunfo. É um trabalho de redefinição que pode incomodar aquele fã mais ranheta, mas que amplia seu impacto para muito além dessa bolha nerd. Ao eliminar a necessidade de uma bula para embarcar no filme, fica fácil se deixar seduzir pela reinterpretação inteligente de um personagem que segue relevante há mais de 80 anos.

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Jim Gordon (Jeffrey Wright) tenta manter o Batman longe de encrencas

Imagem: Warner

Fazer de “Batman” um thriller de suspense pode até parecer uma escolha comercial arriscada. De cara, existe a tarefa extra de “vender” um recomeço, já que não existe absolutamente nenhuma conexão com o universo compartilhado desenhado para os heróis da DC desde “O Homem de Aço”.

A confiança do estúdio, porém, vem do sucesso de “Coringa”, um filme separado do universo de “Mulher-Maravilha” e “Aquaman” e que, ancorado pela performance premiada de Joaquin Phoenix, faturou mais de US$ 1 bilhão. Criar um bom filme, quem diria, ainda é a melhor forma de colocar as pessoas no cinema.

Muito do sucesso de “Batman”, porém, está na percepção que a plateia terá de Robert Pattinson como Bruce Wayne e seu alter ego fantasiado. Apesar de seus detratores, incapazes de enxergar além de “Crepúsculo”, Pattinson foi a escolha perfeita para assumir o manto do Batman nessa nova perspectiva.

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Matt Reeves dirige Robert Pattinson em ‘Batman’

Imagem: Warner

Ao longo da última década, o ator de 35 anos optou em lapidar seu talento em filmes independentes, muitas vezes complicados e nada óbvios. Ao aceitar encabeçar “Batman”, ele deliberadamente voltou ao holofote que pareceu fugir tão desesperadamente. A explicação é simples: Pattinson enxergou em Bruce Wayne um desafio dramático tão complexo quanto filmes como “The Rover” ou “O Farol”.

Isso fica claro quando Matt Reeves decide não repetir a cena do assassinato dos Wayne. Com esse vácuo, ele entrega a Pattinson a tarefa de refletir e repetir a tragédia constantemente em seu rosto, em seus olhos. Existe uma tristeza perpétua em seu olhar, uma angústia que se equilibra entre o desejo de vingança e a busca por justiça.

É um Batman solitário e amargo, uma versão do herói que funciona melhor quando, mesmo em uma cidade de degenerados, ele se destaca como uma aberração, um sujeito tão perturbado quanto os criminosos que ele espanca. É um mundo em que não faz sentido a existência de um Superman voando pelo céu de Gotham. Tudo bem. “Batman” não é um filme de super-heróis. Porque, no fim, não precisa ser.



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