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O passado no presente – 09/02/2022 – Josimar Melo

Por mais longas que sejam nossas viagens, elas não podem durar mais do que algumas décadas. Mas percebi agora que uma parte de mim vem viajando há milênios, e que meu corpo traz como bagagem estas impressões de viagem.

A descoberta começou no final do ano passado com um encontro que ocorria depois de “apenas” algumas décadas com meu colega de escola Fernando Kok, hoje médico e dono de uma empresa de análise genômica (ou algo assim… que sei eu… não estudei tanto como ele, continuo igual à minha adolescência), a Mendelics.

Contou-me que através de um site mantido por eles, o meudna.com, é possível realizar (com material de coleta enviado em casa) vários testes baseados na análise do nosso DNA.

Por exemplo, identificar, através da saliva do bebê, doenças tratáveis da primeira infância (não era meu caso); testar a predisposição genética para várias doenças, como câncer (tarde demais para mim); e um outro que, este sim, captou minha curiosidade: mapear suas origens, sua ancestralidade genética, comparando pela amostra de saliva a composição genética de 88 povos ao redor do mundo.

Meu interesse logo se transformou em ação, diante do irrefutável argumento científico do dr. Kok: “aproveita que amanhã é Black Friday, terá 70% de desconto”.

E parti, então, para entender as viagens dos meus ancestrais pelo mundo, até chegar a este corpo mais que imperfeito que habito.

Foi assim: 83,7% de mim vieram da península Ibérica. Faz sentido.

Meus ancestrais, dos quais só tenho referências até duas ou três gerações atrás, eram muito brasileiros, de nomes portugueses, então claro que vim principalmente de Portugal, talvez com uma pitadinha de Espanha (o perfil genético de portugueses e espanhóis se confunde, ao mesmo tempo em que é bem distinto dos demais europeus).

Só aí já tenho uma herança multitudinária —segundo o próprio site, “a composição genética da população ibérica é bastante diversa e foi influenciada por diferentes civilizações mediterrâneas e orientais”. Povos celtas, fenícios, gregos, romanos, germânicos e mouros se estabeleceram ali, deixando resquícios genéticos no DNA ibérico.

Em segundo lugar, trago em mim 11,1% de africanos. Destes, 6,9% do norte da África (Marrocos, Argélia, Tunísia), por onde passaram ocupantes fenícios, gregos, romanos, bizantinos, otomanos, e cujos povos originais, os berberes, junto com outros habitués, os árabes, ocuparam no século 8 a península Ibérica (chamados de mouros) —foi deste pit-stop de mais de cinco séculos que devem ter vindo estes meus genes africanos.

Minha outra porção africana –4,3%— vem do oeste do continente, especialmente de Angola. Meu mapa genético não traz detalhes picantes, mas podemos supor que em algum momento, em terras brasileiras, meus ancestrais portugueses e angolanos (ou, espero, seus descendentes, já depois da escravidão) tenham trocado fluidos e somado genes.

Que bom que ainda carrego esta herança.

O mais decepcionante foi verificar que apenas 3% de mim vêm daqui, com traços dos “nativos da América do Sul”. Minha mãe nasceu na Amazônia, e tento sempre me sentir em casa na região. Esperava ser mais “nativo” do que apenas esta minguada porção.

O mais surpreendente foi saber que meus restantes 2,2% vêm da… Irlanda.

Minha avó paterna, pernambucana, tinha olhos azuis, que sempre atribuí a alguma estripulia holandesa da turma do Mauricio de Nassau. Vai saber se foi por aí que entrou em mim esta pitada britânica.

Mas, bom saber: doravante, em 2% do ano, me entregarei entre stouts e whiskeys às libações enlouquecidas do dia de St. Patrick, como se o Bloomsday de Joyce durasse sete dias.


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