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O que vai revolucionar o futuro já está acontecendo hoje; difícil é enxergá-lo – 22/06/2022 – Ezra Klein

Em texto recente intitulado “How to Future”, Kevin Kelly, um dos fundadores da Wired, escreve que “a maioria dos futuristas na realidade está prevendo o presente”. “E o presente é muito difícil de se enxergar.”

Aquilo que vai revolucionar o amanhã frequentemente parece hoje uma aberração, algo de nicho, uma trivialidade ou impossibilidade. Kelly então oferece um conselho: “Às vezes penso em ‘enxergar o presente’ com olhos de alienígena: olhar o mundo como se eu fosse alguém de outro planeta”. Então, no espírito do futurismo, tentarei olhar para este momento como se fosse um ET. O que chamaria a minha atenção?

Um ponto de partida talvez seja justamente isso: começar por extraterrestres. No último 17 de maio, o Subcomitê sobre Contraterrorismo, Contrainteligência e Contraproliferação do Comitê de Inteligência da Câmara dos EUA promoveu uma audiência sobre fenômenos aéreos não identificados.

Temos agora dezenas de instâncias de objetos aéreos esdrúxulos detectados por “múltiplos instrumentos”, sem falar naqueles vistos por pilotos experientes. Em 18 deles, os objetos parecem se mover sem fonte evidente de propulsão ou estar mascarando seu modo de locomoção —sua “assinatura” —de maneiras que acreditamos que nenhum país do planeta possua a tecnologia necessária para fazer.

“Há uma série de eventos para os quais não temos explicação, e há um pequeno punhado com características de voo ou controle de assinatura que não conseguimos explicar com os dados ao nosso alcance”, disse, em depoimento, o vice-diretor de inteligência naval, Scott Bray.

Um tema da audiência foi o trabalho que o governo está realizando para “desestigmatizar” os relatos sobre esses avistamentos. Ou seja: há muito, muito mais avistamentos do que aqueles dos quais temos conhecimento, em parte porque você seria visto como maluco se falasse alto demais sobre o que viu.

Logo, os avistamentos que podemos investigar são só uma pequena fração do total (algo sobre o qual fico muito ciente sempre que menciono este tópico e minha caixa de entrada se enche de relatos sobre óvnis).

Assistindo ao depoimento, não diria que a conclusão a tirar é que temos recebido visitas de ETs. Talvez tudo isso acabe revelando ser fruto de ilusões óticas e erros de sensores. Mas eu colocaria assim: alguns anos atrás considerei muito baixa a probabilidade de haver algo de concreto nos relatos de avistamentos de óvnis; hoje me parece mais provável que haja algo de real acontecendo, embora não saibamos o que é.

E isso me conduz a outra história estranha que apareceu no noticiário: Blake Lemoine, engenheiro do Google (hoje suspenso), afirma acreditar que o sistema de inteligência artificial Language Model for Dialogue Applications (modelo de linguagem para aplicações de diálogo), ou LaMDA, tornou-se senciente (ou seja, consegue aprender por meio dos sentidos, adquiriu consciência).

O LaMDA é um modelo de inteligência artificial que foi treinado com montanhas de texto para imitar a conversa humana, prevendo qual palavra normalmente segue a palavra anterior. Sob esse aspecto, é semelhante ao célebre bot GPT-3 da OpenAI. E os resultados são realmente bizarros.

O Google diz ter investigado as declarações de Lemoine e não crê que o LaMDA seja senciente. Mas pouco antes de Lemoine dizer o que disse, um vice-presidente do Google, Blaise Agüera y Arcas, escreveu que quando estava falando com o LaMDA “senti o chão tremer”. “A sensação que tive foi cada vez mais a de estar conversando com algo inteligente.” Ele não estava afirmando que o LaMDA é senciente, como diz Lemoine, mas fica claro que interagir com o LaMDA foi uma experiência perturbadora para ele.

Não acredito que o LaMDA seja senciente. Se você treina um algoritmo de aprendizagem de máquina a escrever como um humano, deve prever que com o tempo ele comece a soar como um humano quando escreve. O que acredito é que o LaMDA é um dos muitos exemplos que provam que a inteligência artificial está ficando melhor, e em menos tempo, do que a sociedade está realmente preparada para encarar.

A maioria das pessoas que conheço que trabalham com IA diz que estamos avançando rapidamente em direção a um mundo no qual máquinas capazes de aprender vão transformar tudo e possivelmente até saber que o estão fazendo. Num primeiro momento, duvidei. Mas as maravilhas novas que aparecem a cada ano que passa confirmam as previsões. É possível que cheguemos a um teto, mas isso ainda não aconteceu. E nosso mundo pode ser transformado por uma IA que é muito menos que senciente.

Tomemos um exemplo: como estabelecer a verdade quando modelos de IA são capazes de escrever, desenhar e criar vídeos melhores do que a maioria dos humanos consegue, e a custo quase zero? A questão de saber, por exemplo, se estudantes secundaristas escreveram suas próprias redações começa a parecer impossível —que dirá as possibilidades de desinformação organizada e utilizada como arma.

E isso nos conduz às audiências sobre o 6 de Janeiro. No cerne de nossa dificuldade em prever o futuro está nossa premissa de estabilidade. As coisas são assim hoje, logo, provavelmente serão assim também amanhã. O que torna sedutor esse modo de pensar é que ele geralmente corresponde à verdade. Mas então, de repente, não corresponde mais.

Boa parte do que as audiências nos revelaram nós já sabíamos. Houve uma tentativa organizada de negar e derrubar os resultados da eleição de 2020. Houve resistência da parte de muitos cuja aquiescência teria sido necessária: o secretário de Justiça William Barr, que descreveu as teorias como “disparate”, e o vice Mike Pence, que tentou mobilizar forças de segurança para reprimir a insurreição no Capitólio.

Mas o presidente Donald Trump fez mais do que aquiescer. Ele apoiou os esforços. Recusou-se a convocar forças de segurança para proteger o Capitólio. Propagou as teorias conspiratórias que converteram os insurrecionados em patriotas, na cabeça deles. Discursou no comício “Stop the Steal” (parem o roubo) que precedeu a insurreição e, segundo suas próprias palavras, quis liderar a multidão até os degraus do Capitólio. E, mesmo após a invasão do prédio, a maioria dos deputados republicanos votou contra a certificação dos resultados da eleição.

Contudo, a pergunta que inspira boa parte dos comentários sobre as audiências do comitê seleto sobre o 6 de janeiro é: “Elas [as audiências] vão mudar alguma coisa?”. A Fox News se negou inicialmente a transmitir as audiências. Ninguém acredita que o Partido Republicano vá impedir Trump de participar das primárias de 2024 em razão de seus atos. Pelo contrário, o partido se aproximou ainda mais de Trump.

Após a insurreição, o deputado Kevin McCarthy, líder da minoria na Câmara, disse a outros republicanos que incentivaria Trump a renunciar. Mais tarde ele negou ter feito esses comentários, mas então o áudio das declarações veio à tona. Republicanos já nomearam dezenas de candidatos que apoiam firmemente as mentiras e as manobras de Trump para subverter a eleição de 2020. Os republicanos no poder em 2024 serão muito mais abertos aos argumentos de Trump que os que estavam no poder em 2020.

Não penso que seja provável que o sistema político americano desmorone nos próximos anos. Mas até que ponto exatamente isso é improvável? Até alguns anos atrás, dois acontecimentos se destacavam para mim como sinais da estabilidade férrea de nosso sistema político. O primeiro foi a renúncia de Richard Nixon devido ao Watergate, que se deu num esforço para evitar ser alvo de impeachment e condenação, depois de perceber que muitos membros de seu próprio partido votariam por seu afastamento.

O segundo acontecimento foi a eleição de 2000, quando Al Gore admitiu sua derrota a despeito de incerteza e da confusão genuínas em torno dos resultados das urnas. Os dois fatos destacaram uma cultura política na qual, em momentos de importância maior, membros de ambos os partidos puseram a estabilidade do sistema em primeiro lugar.

Nenhuma dessas situações transcorreria do mesmo modo hoje. Nixon sobreviveria, respaldado pela Fox News e por um Partido Republicano mais radicalizado. Cenário semelhante ao de 2000 provocaria caos, e a Suprema Corte não teria a credibilidade que usou para intervir na disputa Bush vs. Gore.

As condições que nos ajudaram a fazer frente a desafios passados não existem mais. É difícil conseguir que as pessoas prestem atenção ao inquérito sobre a tentativa de subverter a eleição, apesar de ele girar em torno de um dos principais nomes para 2024. É uma recusa quase majestosa de encarar o presente.

Devo reconhecer que com muito disso eu traí outro dos ditados futuristas de Kevin Kelly. “Tentar enxergar além dos ciclos noticiosos imediatos é um desafio”, escreve ele. Mas o fato é que não sou futurista –sou jornalista. Todas essas histórias têm sido destaques do noticiário nos últimos meses. Levar qualquer uma delas a sério —acreditar que a direção para a qual apontam é a direção que vamos seguir— é acreditar que estamos na cúspide de um futuro muito diferente de nosso passado. Em relação a isso, George Orwell acertou quando disse: “Enxergar o que está diante do nosso próprio nariz requer um esforço constante”.

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