Sports

Os pássaros são robôs – 16/04/2022 – Antonio Prata

Nos Estados Unidos não tem passarinho. Entre 1959 e 2001, a CIA capturou, matou e substituiu 12 bilhões de aves por drones. Há décadas, portanto, robôs com câmeras e microfones espionam cada cidadão americano, ininterruptamente, em busca de comportamentos subversivos.

Esse massacre ecológico de viés totalitário foi a maior farsa do século 20. Felizmente, em 1976, um ex-funcionário do FBI, cansado da mentira, revelou a trama a alguns poucos escolhidos. Assim nasceu o movimento Birds Aren’t Real (pássaros não são reais, numa tradução literal e sem nenhum charme).

Desde então, alguns abnegados lutam para abrir os olhos do mundo. Esses heróis são perseguidos, presos e calados, pois há sempre uma pomba, uma gaivota, uma andorinha, que seja, pronta a dedurar atividades suspeitas.

“Ah, mas e o meu frango assado?” é uma das primeiras perguntas no FAQ do site Birds Aren’t Real . É carne sintética, meus amigos, idêntica à real. Tudo nessas máquinas é igualzinho à matéria orgânica. A tecnologia que universidades e empresas detêm hoje já era do conhecimento do governo dos EUA décadas atrás. Ou você acha que o país mais poderoso do mundo iria dar tecnologia de graça pros inimigos?

Bizarro tudo isso? Não mais do que o terraplanismo, a maluquice de que o homem jamais foi à Lua, de que o Haddad iria distribuir em creches “mamadeiras de piroca”, de que Hillary Clinton e Leonardo DiCaprio bebem sangue de crianças no subsolo de uma pizzaria em Los Angeles (QAnon).

A diferença entre Birds Aren’t Real e tantos outros delírios conspiratórios é que Birds Aren’t Real não é real. É uma piada. Um movimento, digamos assim, performático. Peter MacIndoe nasceu há 23 anos numa família ultrarreligiosa do Arkansas.

Foi educado em casa: seus pais achavam que as escolas eram um sistema de lavagem cerebral do governo, cuja intenção era corromper as almas das criancinhas com “mentiras” tipo “seleção natural” e “homossexualidade”.

Na adolescência, Peter teve acesso à internet e se deu conta de que a família era dodói. Foi justamente aí, em sua lua de mel com o livre pensar, que Trump, Bolsonaro, Erdogan, Putin, Orbán e outros delinquentes surgiram com um catecismo nível Hanna-Barbera de verossimilhança. Peter, que tinha acabado de se livrar do totalitarismo familiar, teve ali um déjà-vu do rebu e, em contra-ataque, inventou Birds Aren’t Real.

“A Terra é plana”? “Truco! Te digo que os beija-flores são robôs assassinos da CIA. Vai, paizão, manda uma maluquice.” “O Holocausto não existiu”? “Pois eu te digo que fios de telefone nos postes são os carregadores de bateria das aves/drones. Que os urubus são máquinas de tirar bichos atropelados da estrada –a verba vem do Ministério da Saúde.”

Birds Aren’t Real é a tentativa de combater o absurdo escancarando-o através do mais absurdo. Claro, há sempre o risco de a coisa viralizar do jeito errado: de uma hora pra outra a piada sair do controle e milhões acreditarem que os pássaros são realmente drones. A serviço do comunismo. E do sistema financeiro mundial. E do maconhismo. E da ideologia de gênero. E das tetas da Lei Rouanet para artistas vagabundos. E das máscaras obrigatórias no auge da pandemia.

Putz. Peter que me desculpe, mas tá bem difícil competir com a nossa irrealidade cotidiana. Tá tudo tão absurdo que eu não me espantaria se flagrasse, dia desses, na marquise adiante, um brilho estranho no olhar de um pombo.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Source link

Leave a Reply

Your email address will not be published.

close