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Pandemia não parece ter deixado grandes marcas no funcionamento da economia global – 23/04/2022 – Samuel Pessôa

Em abril, o FMI divulga seu cenário da economia mundial para os próximos anos. O cenário do ano será atualizado em outubro próximo. A tabela apresenta, para três intervalos de tempo e para diversos grupos de países, o que aconteceu, desde o início do século, e o que ocorrerá, até 2027.

Nesse período, tivemos duas grandes crises econômicas globais. A grande crise financeira global (GCFG), produzida pela quebra dos bancos americanos por causa da inadimplência das hipotecas nos EUA; e a crise econômica produzida pela pandemia.

Na primeira linha da tabela vemos como as crises afetaram o crescimento da economia mundial. No período conhecido como “a grande moderação”, de 2000 até 2007, a economia mundial cresceu 4,5% ao ano. Após a GCFG, o mundo cresceu 3,3%, 1,2 ponto percentual abaixo do crescimento do período anterior.

O bom desempenho na grande moderação aparentemente teve algum grau de artificialidade. A economia mundial nunca mais conseguiu retomar aquele ritmo.

Diferentemente, a crise econômica produzida pela pandemia não parece ter deixado grandes marcas no funcionamento da economia. Se entre 2008 e 2019 a economia global cresceu 3,3% ao ano, segundo a projeção do FMI, entre 2020 e 2027 (tomando como base 2019, o ano anterior ao intervalo de tempo considerado), o crescimento será de 2,9%, só 0,4 ponto percentual (pp) menor.

Metade da desaceleração de 0,4 pp deve-se à redução do crescimento da China de 3 pp (8% de 2008 até 2019 ante 4,9% para o período 2020 até 2027). Como a economia chinesa na média representou uns 15% da economia mundial, uma queda de 3 pp retira 0,2 pp do crescimento do mundo. A desaceleração da China é natural em uma economia cujo crescimento se deve menos ao crescimento da indústria de transformação e mais ao dos serviços.

O 0,2 pp adicional de queda, segundo o FMI, deve-se à piora do desempenho das economias emergentes, principalmente as da Europa e da África subsaariana. Para a América Latina, o FMI não enxerga grande desaceleração para o período 2020 até 2027 em comparação ao período anterior. A grande perda de desempenho da nossa região foi após a GCFG.

Quando olhamos as economias avançadas, o FMI projeta para o período entre 2020 e 2027 uma leve aceleração em relação a 2008-19, de 1,4% ao ano para 1,6%.

Como temos defendido na coluna, a crise da epidemia é fruto de um choque externo ao funcionamento da economia e, portanto, não deixará marca permanente sobre a atividade econômica.

Para a economia brasileira, a piora é marcante. Crescemos, entre 2000 e 2007, 3,6% ao ano. No período seguinte, de 2008 até 2019, crescemos 1,6% e, segundo o FMI, rodaremos a 1,4% de 2020 até 2027.

Nunca considerei que nosso bom desempenho nos anos 2000 deveu-se ao choque positivo do preço das matérias-primas. Elas ajudaram bastante na receita pública, como temos visto, aliás, no período mais recente.

Mas nossa aceleração do crescimento nos anos 2000 deveu-se, na minha interpretação, a muita arrumação de casa que fizemos entre 1998 e 2005. O cenário do FMI não é uma condenação. Se conseguirmos nos entender e construirmos um contrato social viável, como fizemos entre 1999 e 2007, poderemos surpreender em relação ao pessimismo do FMI sobre nós.


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