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Partido republicano recorre à política baseada no ódio – 19/04/2022 – Paul Krugman

Então Donald Trump apoiou J.D. Vance na corrida para a nomeação republicana ao Senado por Ohio. O gesto de Trump vai inclinar a balança? Não faço ideia, e francamente não me importo.

A primária republicana em Ohio, afinal, tem sido uma corrida para o fundo, com os candidatos aparentemente competindo para ver quem pode ser mais vulgar, quem consegue emburrecer mais o debate. Vance insiste que “o que está acontecendo na Ucrânia não tem nada a ver com nossa segurança nacional” e que devemos nos concentrar na ameaça dos imigrantes que cruzam nossa fronteira sul.

Josh Mandel, que lidera as pesquisas, diz que Ohio deve ser um estado “pró-Deus, pró-família, pró-bitcoin“. E assim por diante. Qualquer desses candidatos seria um terrível senador, e é impossível prever quem seria o pior.

Mas o negócio sobre Vance é que enquanto nestes dias ele dá ao oportunismo cínico um mau nome, nem sempre foi assim. Na verdade, não muito tempo atrás ele parecia oferecer algum peso intelectual e talvez até moral. Sua memória de 2016, “Hillbilly Ellegy” [Elegia do caipira], atraiu ampla e respeitosa atenção, porque oferecia uma visão pessoal de um problema real e importante: a esgarçadura da sociedade nos Apalaches e mais amplamente de um segmento importante da classe trabalhadora branca.

Mas nem Vance nem, até onde posso dizer, qualquer outra figura notável do Partido Republicano está defendendo qualquer política real para abordar esse problema. Eles se contentam em explorar o ressentimento da classe trabalhadora branca; mas quando se trata de fazer alguma coisa para melhorar a vida de seus apoiadores seu slogan implícito é “Que eles comam ódio”.

Vamos falar por um minuto da realidade sobre a qual Vance escreveu na época em que muitos o levavam a sério.

Eu ainda encontro pessoas que imaginam que a disfunção social é um problema que envolve, principalmente, moradores não brancos das grandes cidades. Mas essa imagem está atrasada em décadas.

Os problemas sociais que empestaram os Estados Unidos no século 21 —notadamente o grande número de homens em idade produtiva que não trabalham e as generalizadas “mortes por desespero” por drogas, suicídio e álcool— recaíram mais pesadamente nos brancos da zona rural e de pequenas cidades, especialmente em partes do interior que ficaram para trás, enquanto uma economia centrada no conhecimento favorece cada vez mais as áreas metropolitanas com educação superior.

O que se pode fazer? Os progressistas querem ver mais gastos sociais, especialmente em famílias com filhos; isso faria muito para melhorar a vida das pessoas, embora seja menos claro se ajudaria a reviver as comunidades decadentes.

Já em 2016, Trump ofereceu uma resposta diferente: políticas comerciais protecionistas que, afirmava ele, reativariam o emprego industrial. A aritmética dessa afirmação nunca funcionou, e na prática as guerras comerciais de Trump parecem ter reduzido o número de empregos industriais nos Estados Unidos. Mas na época Trump pelo menos fingia tratar de um problema real.

Nesta altura, entretanto, nem Trump nem qualquer outro republicano importante estão dispostos a ir tão longe. Eu diria que a campanha republicana em 2022 é totalmente sobre guerra cultural, o tempo todo, exceto que isso seria dar crédito demais aos republicanos. Eles não estão lutando uma verdadeira guerra cultural, um conflito entre visões rivais de como nossa sociedade deveria ser; eles estão instigando a base contra fantasmas, ameaças que nem sequer existem.

Isto não é uma hipérbole. Não estou falando só de coisas como o pânico sobre a teoria racial crítica, embora isso tenha passado a significar praticamente qualquer menção ao papel que a escravidão e a discriminação tiveram na história dos Estados Unidos. A Flórida está até recusando livros escolares de matemática, afirmando que eles contêm temas proibidos.

Isso é ruim. Mas estamos vendo um foco crescente em teorias da conspiração ainda mais bizarras, com ataques frenéticos à conscientização social da Disney, etc. E aproximadamente a metade dos que se identificam como republicanos acredita que “altos democratas estão envolvidos em círculos de tráfico sexual de crianças”.

O que as pessoas talvez não percebam é que a retórica anti-imigrantes é quase tão distante da realidade quanto as teorias do tipo QAnon sobre democratas pedófilos. Quero dizer, sim, existem imigrantes sem documentos. Mas a ideia de que eles representam uma grande ameaça à ordem pública é uma fantasia; na verdade, a evidência sugere que eles são consideravelmente mais seguidores da lei do que os americanos nativos.

E fazer da suposta insegurança na fronteira sul seu principal tema de campanha é especialmente bizarro quando se está disputando um cargo em Ohio, onde os imigrantes formam apenas 4,8% da população —cerca de um terço da média nacional. (Quase 38% da população da cidade de Nova York e 45% de sua força de trabalho são imigrantes. E não é exatamente um inferno distópico.)

Mas veja, nada disso é um mistério. Os republicanos estão seguindo um antigo manual que seria totalmente familiar a, digamos, instigadores de pogroms na era czarista. Quando as pessoas estão sofrendo, você não tenta resolver seus problemas; você as distrai dando-lhes alguém para odiar.

E a história nos diz que essa tática muitas vezes funciona.

Como eu disse, não faço ideia se o apoio de Trump a Vance será importante. O que eu sei é que o Partido Republicano como um todo recorreu à política baseada no ódio. E se você não sente medo é porque não está prestando atenção.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves


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