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Problema nunca foi como se livrar de Boris Johnson – 07/07/2022 – Mundo

Boris Johnson provavelmente chegou ao final desta quarta-feira (6), quando os deputados de seu partido foram até Downing Street pedir a sua saída, como no dia do plebiscito do brexit: com um discurso para defender a permanência do Reino Unido na União Europeia e outro para celebrar a saída do país.

Mestre na arte da intriga, Boris tem uma aura que deriva da sua ausência de bússola moral. Ele era só a face mais visível e deveras exótica do processo de degradação institucional britânico iniciado pelo brexit.

Não por acaso, personagens que participaram de sua queda também foram protagonistas do principal acontecimento político da Europa neste século. Entre eles destacam-se Michael Gove, ex-ministro e traidor contumaz que conseguiu ser demitido dos três últimos governos, e o teatral Jacob Rees-Mogg, um dos únicos deputados que se recusaram a abandonar Boris até o final.

Os potenciais candidatos conservadores a premiê perderam parte do capital político nos últimos meses. Rishi Sunak, promissor secretário das Finanças que se apresenta como produto da imigração, foi obrigado a revelar as ligações familiares com uma das maiores empresas indianas de tecnologia.

O anglo-iraquiano Nadhim Zahawi o sucedeu dias atrás apenas para espetar a última faca nas costas de Boris. Habituais slogans da política brasileira, como “o pior emprego do mundo” e “de tédio não morreremos” aplicam-se à perfeição ao mundo centenário e hipercodificado da política de Westminster.

Se o Partido Conservador há muito é conhecido como o “nasty party”, o partido nojento, devido aos golpes sujos de seus membros, o nível de canibalismo político que o caracteriza atualmente não pode ser apenas explicado pela sua cultura interna. Ele também é atribuído aos vícios do processo do brexit, que deixou a política britânica presa em contradições. A vitória avassaladora dos conservadores nas eleições de 2019, seguida pela assinatura do acordo de saída da União Europeia, abriu uma falha estrutural.

Por um lado, os conservadores estabeleceram uma nova hegemonia a partir da conquista de bastiões industriais que votavam na esquerda desde a Segunda Guerra. A legenda, antes elitista e urbana, teve de compor com uma base de deputados que dependem do eleitor atraído pelo nacionalismo do brexit.

Por outro, o Partido Trabalhista, principal força da oposição, perdeu sua base na Escócia, que apoiou com força a sigla independentista local. Desde então, suas lideranças se tornaram espectadores impotentes.

Por mais que seja politicamente insustentável, a hegemonia conservadora é forte demais para ser derrubada. Esse problema de fundo é o motor da crise que sacode os conservadores. As polêmicas sobre as festas na pandemia ou a vida privada de Boris são só as manifestações mais folclóricas.

Mas o impasse não é sinônimo de apatia do Estado. Com política externa hiperreativa, o Reino Unido desenvolveu uma identidade única pró-brexit na era Boris, destacando-se pela proatividade na Guerra da Ucrânia, pelas provocações intermináveis à União Europeia e pela agenda comercial agressiva.

Mas essas vitórias pírricas, conquistadas com manobras políticas que consolidam a reputação do premiê de parceiro errático e inconfiável, também deixam expostas a ausência de uma discussão sobre o projeto de país. O Reino Unido, essencialmente, precisa escolher entre dois destinos.

O japonês, de um país envelhecido e autônomo do ponto de vista geopolítico, que consegue renovar o seu parque industrial e se manter relevante como contraponto à hegemonia regional, ou o italiano, caracterizado por um modelo político que impede a sua renovação e acelera a sua decadência.

O problema do Reino Unido nunca foi como se livrar de Boris Johnson. É o que fazer do brexit.

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