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Putin é ludibriado por ‘contos de fardas’ de seus generais – 16/04/2022 – Muniz Sodré

Perplexidade é o mínimo que inspira a reação de um dos voluntários brasileiros da Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia à queda de um míssil russo sobre o acampamento de um batalhão: “Eu não imaginava o que era uma guerra. A informação que a gente tem é que todo mundo morreu”.

A incerteza é geral, porque esse fato não teve foco na mídia hegemônica. Os russos falaram em 180 mortos. A se confiar no vaivém factual das redes, o batalhão teria sido exterminado de uma vez só.

Confiar no que se conta, porém, é a questão-chave. A Rússia, descrita por especialistas como uma autocracia informacional, é hoje o centro mundial da desinformação. Tem sido assim com Putin, ex-profissional da KGB. Sobre a invasão, é baixa a credibilidade dos russos, desde que começaram a ficar evidentes os desacertos de suas tropas.

A guerra de narrativas duvidosas, porém, é bilateral: os heróis ucranianos são tiktokers, vestidos à moda do ficcional GI-Joe, disfarçando a realidade brutal dos ataques para não assustar voluntários. A verdade da guerra atual é só tecnológica: as armas são indefensáveis e praticamente prescindem de infantaria.

Mísseis e tanques arrasaram cidades ucranianas, mas as perdas de soldados russos são tão elevadas que o próprio Putin, ludibriado pelos “contos de fardas” de seus generais, poderia estar alheio a informações confiáveis sobre os reveses da invasão. As valas sepultam os mortos e a verdade.

A desinformação pode estar indo além dos próprios limites. E a tal ponto que talvez se tenha entrado num estado de pós-fake news ou “fake life”, que é o fechamento sistemático dos olhos à evidência. Essa é a metáfora de José Saramago no “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), em que todo mundo subitamente deixa de enxergar. Não é mais o embate entre verdade e mentira, mas uma pandêmica cegueira cognitiva, em que se põe de quarentena a realidade, como quando se acredita que vacina tem chip.

Só num estado global de alienação desses se concebe que alguém possa voluntariar-se para uma guerra, sem qualquer informação quanto a sua realidade. Uma centena de brasileiros, em geral instrutores de tiro, teriam se alistado na Legião. A fonte de inspiração é o metaverso, onde réplicas do GI-Joe, em uniformes portentosos, sugerem alvos russos. As “batalhas” vinham acontecendo entre narrativas de TikTok, Telegram etc. Mas o falatório intenso nas redes teria revelado aos mísseis o sítio (não o “site”) do batalhão.

E como o real sempre acaba cobrando o seu preço, uma frase do quase-herói resume tudo: “Escapou quem saiu correndo para o mato”.


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