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Sobre o sossego que podemos sentir quando nos livramos das ambições – 23/07/2022

Aconteceu durante uma dessas brincadeiras metamórficas em que ora somos lebre, ora tartaruga, ora leão, ora lobo. Convertido em lobo, coube que me disfarçasse de vovó, vestindo uma touca de banho e cobrindo meu corpo inteiro, estendido agora no sofá. Foi nesse instante, enquanto chapeuzinho se demorava distraída em suas canções, foi nesse instante que me esqueci da minha voracidade de lobo, que deixei meu corpo descansar, sem fomes, sem ânsias, sem desmedidos ardores. Eu era agora uma vovó, e sentia uma inesperada calma ao meu redor, uma calma que era também interior, como se minha vida se aproximasse do final em plena serenidade, num suave apagamento das urgências, das angústias, dos receios de irrealização.

Estou até agora tentando entender o que senti naquele momento, naquela súbita revelação de uma sabedoria senil. Acho que vivenciava um certo fim da ambição, e que isso me propiciava um alívio sensível. Acho que, por um átimo, e pelo efeito imersivo do teatro mesmo que tão amador, eu estava satisfeito com os rumos da minha vida, estava saciado de quaisquer pretensões. Já não ansiava por nada além daquele sossego, nada mais me parecia imprescindível, e esse era um sentimento libertador. É muito mais prazeroso brincar com as minhas filhas quando não me ponho a lamentar o livro que não tenho escrito, ou o outro que não tem sido tão lido quanto eu gostaria, ou quando me permito não pensar num tema arrebatador para a coluna de sábado. Muito mais prazerosa é a vida despida das ambições.

O que me dizia a sábia vovó em que eu me travestia é que todos temos sido um tanto ambiciosos demais, um tanto vaidosos, um tanto afoitos. Algo em nossa época, algo que se relaciona à exposição constante de cada uma das nossas conquistas, por ínfima e irrelevante que seja, parece provocar em nós uma sanha maior pelo reconhecimento dos outros. O desejo de sucesso se fez mais intenso e mais universal, o desejo de um sucesso que já não pode ser parcial ou menor, não pode ser a mera identificação de uma qualidade entre tantas. Deseja-se tudo, ser bom, ser grande, ser vastamente conhecido pelos demais, e ganhar muito dinheiro a partir disso. O que resulta da imensidade dessa ambição é uma forte tendência à insatisfação, e uma ansiedade bem difundida.

“Disso tudo eu extraí uma concepção bastante obstinada e duradoura: que não existe nada a se temer tanto quanto a egolatria”. Isso quem disse foi Virginia Woolf, falando sobre outro assunto, mas a declaração ainda pode ser valiosa para os nossos fins. Uma cultura ególatra, feita de um amor excessivo de cada um por si mesmo e por sua imagem, não nos conduz a realizações inimagináveis, e sim a uma subjetividade em crise, atravessada por inseguranças e vaidades emprestadas. A ambição em suas últimas consequências não gera a superação dos limites alguma vez concebidos para a humanidade, e sim o contrário, a percepção da mesquinhez de que somos feitos, daquilo que nos limita e nos abate.

A vaidade de um artista, em particular, pode alcançar níveis incomensuráveis. Woolf em seu diário dá indícios do alívio que sentiu ao saber da morte de Katherine Mansfield, uma amiga e uma escritora que ela admirava, por se ver então livre de uma rival — sentimento logo sucedido pela tristeza mais razoável e por uma dor muito mais real. Mas é evidente a consciência de Woolf, como a de qualquer artista de valor, de que esse excesso narcísico, embora às vezes inescapável, não é nunca a base do impulso criador, não é seu gesto fundador. Alguma dose de ambição é necessária ao escritor, claro, mas bem mais importante é seu compromisso com a obra, o zelo consciencioso na concepção dos personagens, das tramas, na composição das frases. Mais fundamental que a ambição irreal é a dedicação à realidade da arte.

Nenhum desses pensamentos me habitava naquele instante em que eu era vovó, antes que chapeuzinho despontasse à porta e eu tivesse que voltar a ser lobo para devorá-la. Ali eu não era mais que calmaria e silêncio, imperturbado por qualquer reflexão artística, imperturbado pela presunção dos pensamentos. Quis então viver assim por mais um tempo, e esse tem sido o meu esforço, tentar ao máximo calar os clamores da ambição, as estridências da vaidade, para existir apenas comigo e com os que me cercam, em estado de simplicidade. Convido-o, eventual leitor, a se somar a mim nesse estado, a se tornar vovó comigo: sinto que o alcançaremos melhor se o buscarmos todos juntos.



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