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Toda mulher já sofreu abuso e, pior, muitas ainda se culpam por isso. – 15/07/2022

Um anestesista aumentou a sedação de uma mulher que paria para, enquanto isso, estuprá-la. Um outro jeito de ler esta frase seria: a humanidade acabou, o mal existe, o mal não está necessariamente ligado ao medo, pelo contrário: o mal está ligado ao poder.

Fui tomada, assim como a maioria das pessoas, por um mal-estar físico quando soube da notícia, meu próprio corpo sentindo o eco violento do absurdo. E, sim, inicialmente pensei no mal, aquilo que se costuma atribuir ao outro, aquilo que nós nunca faríamos, aquilo que as pessoas que amamos, ou mesmo as pessoas que compartilham da cotidianidade de nossa existência, mais especificamente os homens que atravessam nossos dias e nossa vida, nunca fariam.

Mas as coisas não são bem assim. Lembrei da vez em que respondi voluntariamente ao questionário de um estudo sobre estresse pós-traumático, que comparava as violências que eu já havia sofrido com minhas reações a elas. Eram várias, ao longo da minha existência, desde a infância até aquele momento. Tantas que, para que eu vivesse normalmente, “como se nada tivesse acontecido”, era cotidianamente necessário, assim como para toda mulher brasileira, uma mistura de resiliência com dissociação.

Assim como toda mulher brasileira, já sofri assédio, já sofri abuso, já me passaram a mão; já me apertaram, já me fizeram coisas das quais eu não poderia me defender; já me fizeram vítima de violências que, na hora, eu não tinha recursos suficientes para sequer compreender como violência, seja porque eu ainda fosse criança ou, mais tarde, porque eu não tivesse conhecimento suficiente; seja ainda porque simplesmente estivesse bêbada.

Já me culparam por isso; por ter bebido, por estar no lugar errado, por estar vestindo a roupa errada; eu mesma custo a não me culpar por cada uma dessas coisas.

Não só porque me constituí e penso segundo a sociedade em que vivo, essa nossa sociedade em que a culpa está sempre armada para caber perfeitamente em quem não tem poder, mas também porque sentir culpa é um jeito, ainda que enviesado, de tomar minimamente as rédeas da própria vida. Um jeito de sair, seja por que atalho for, do lugar de vítima.

Não se nasce mulher, torna-se, disse Simone de Beauvoir. Ser mulher precisa ser diferente de ser suscetível a tantos tipos de violência, mudança que cabe não a cada uma de nós, mas aos homens que nos violentam. Que assumem o próprio desejo como imperativo, que entendem o interior de nosso corpo, segundo Rebecca Solnit, como extensão de seu espaço de direito. Que nos sedam — ápice do terror — em uma sala de parto, mas que nos calam no dia a dia, como se nada fosse.

Triste o nosso momento evolutivo, triste a humanidade, que se muniu de tecnologia suficiente para fotografar o Universo, mas não oferece condições mínimas de dignidade a suas habitantes sobre a Terra.

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