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Um roteiro de comédia para dois presidenciáveis – 19/08/2022 – Leandro Narloch

Um homem é obrigado a concorrer à Presidência contra a vontade. Já foi presidente antes, está cansado demais para disputar uma nova campanha eleitoral. Mas as circunstâncias o obrigam: ou porque ficaria feio não se reeleger, ou porque um grupo de conspiradores o coage a se candidatar para depois renunciar e dar lugar ao vice.

Mas o nosso protagonista não só odeia ser candidato como tem horror à possibilidade de ganhar mais uma eleição.

Passar mais quatro anos fingindo ter um plano para o país? Morando naquele palácio com cheiro de mofo? Levando bronca do William Bonner? Engolindo sapo de deputado do centrão e de ministro do STF? Tendo que sobrevoar áreas destruídas por inundações (que, sabe-se lá por que cargas d’água, sempre caem num fim de semana)?

Nem pensar. O sonho do nosso protagonista é perder a eleição. Ficar em casa assistindo jogo do Corinthians. Pescar e tomar açaí em Angra dos Reis.

Para evitar a vitória e se livrar da Presidência, o candidato toma uma decisão. Vai sabotar a própria candidatura. Dirá os maiores absurdos para espantar seus eleitores e deixar algum concorrente vencer.

Ao perceber que o brasileiro é o povo que mais se vacina, que tem uma relação até carinhosa com as campanhas de vacinação, o candidato decide ser o único presidente da República a não se vacinar contra Covid. E dispara:

– Se você tomar vacina e virar um jacaré, o problema é seu!

Prestes a se encontrar com economistas, o candidato pensa em qual seriam as maiores tolices econômicas que poderia dizer para espantar investidores. Depois de dois dias refletindo, se sai com várias:

– O FMI só enche o saco de país pobre! Não é bravata: não haverá teto de gastos no meu governo! Quem fez a reforma trabalhista tem mentalidade escravocrata!

E ao perceber que a população está aflita com o roubo de telefones celulares, decide defender os ladrões de celular:

– Para que roubar um celular? Para vender, para ganhar um dinheirinho!

Tendo falado todas essas barbaridades, o protagonista se dá por satisfeito. “Pronto, agora nenhum maluco terá coragem de votar em mim!” Mas as coisas não saem como ele esperava.

Em vez de espantar, os absurdos que o candidato falou conquistam ainda mais pessoas. Hordas de apalermados saem às ruas em seu apoio, milhões compartilham seus vídeos nas redes.

Dessa forma dolorosa nosso protagonista aprende a lei fundamental da política brasileira: quanto mais maluco um candidato, maiores suas chances de se tornar presidente do Brasil. “Como fui me esquecer disso! O caminho para perder eleição no Brasil não é fingir demência, e sim parecer racional e sensato!”

Mas é tarde demais. Os assessores chegam em festa, anunciando a ele uma nova alta nas pesquisas de intenção de voto. Subiu sete pontos na última semana de campanha! Tem chances de ganhar no primeiro turno!

O candidato se levanta, pede um momento e se tranca desesperado no banheiro.

“Por quê, meu Deus, por quê?”, murmurra ele, tentando arrancar os cabelos. “Tô velho, quero que me esqueçam, quero ficar em casa curtindo a melhor profissão do mundo, a de ex-presidente. Me livra disso, pelo amor de Deus!”

Nesse momento o teto se abre, uma luz ofuscante invade o banheiro: Deus intervém.

Deus analisa o passado de pecados do homem. Seus atos de corrupção, os favores que recebeu para beneficiar empreiteiras, os casos de rachadinha, as tantas vezes em que traiu eleitores, seus atos de populismo econômico que aumentaram a miséria, as mortes por Covid que ele poderia ter ajudado a evitar. Não dá: são pecados demais.

E assim o Todo Poderoso toma a decisão. Condena o nosso triste protagonista a arder por mais quatro anos como presidente do Brasil.


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